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Correio da Manhã

Domingo

Homenagem a um filho dilecto

A Câmara do Porto tem patente até sábado uma exposição sobre a vida e obra do escritor Raul Brandão, também pintor.
João Pereira Coutinho 24 de Setembro de 2017 às 06:00
A exposição está patente no Porto.

Diz o povo que ninguém é profeta na sua própria terra. Raul Brandão (1867-1930), nos 150 anos do seu nascimento, não tem razões de queixa. Verdade: nem sempre a sua obra, intensa e magistral, teve a atenção que merecia. E depois da morte houve uma hibernação crítica que remeteu o autor de ‘Húmus’ e ‘Os Pobres’ para a prateleira dos dispensáveis.

Felizmente, a academia e a edição têm recuperado Raul Brandão – a sua escrita telúrica, poética, intensamente visual – para as gerações presentes. E a Câmara do Porto, em homenagem a um filho dilecto da cidade, tem uma exposição que merece ser vista – e rapidamente vista: termina no final da semana que amanhã começa.

A exposição é dividida em dois pólos, sob a curadoria (e a sabedoria) de Vasco Rosa. Importa lembrar este nome: nos últimos anos, devemos-lhe a publicação de importantes inéditos e dispersos de Brandão; como devemos estudos críticos sobre o autor, em breve reunidos pela Imprensa Nacional.

Tão profundo conhecimento está presente na primeira parte da exposição, na Biblioteca Pública Municipal do Porto. Entramos, lemos palavras de Brandão em telas belamente dispostas pelo claustro inferior – passagens das suas obras, retratos de contemporâneos, meditações autobiográficas – e completamos a bibliografia com livros, manuscritos e artigos de imprensa numa sala contígua.

Mas a surpresa, para mim, está no segundo pólo da exposição, na Casa Museu Guerra Junqueiro: se Brandão era um ‘pintor’ na prosa, também era pintor de telas – e alguns óleos, como o do amigo Columbano no seu atelier ou uma Crucificação de Jesus Cristo onde a influência de António Carneiro é evidente, são dimensões de Brandão que mereciam descoberta ou redescoberta. Por incrível que pareça, é a primeira vez que o Porto recebe e mostra os seus quadros.

Agora, a única coisa a esperar é que os livros do autor sejam mais amplamente divulgados e lidos (a começar pela obra-prima ‘Húmus’) e que, em 2030, no centenário da sua morte, celebrações deste tipo sejam recebidas com a naturalidade que reservamos aos consagrados.

Para ver até 30 de Setembro

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