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Correio da Manhã

Domingo
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Ir ao inferno e sobreviver

O romance de Afonso Reis Cabral mostra como se escreve uma história sem sucumbir ao tom moral tão na moda
11 de Outubro de 2018 às 12:06
Por Francisco José Viegas

Escrever ficção sobre ‘assuntos contemporâneos’ é sempre deslizar no fio da navalha – em muitos casos (a maioria, por defeito) trata--se de tomar partido num duelo no qual os escritores têm a tentação de querer ficar sempre ‘do lado certo da história’, onde serão louvados pelo seu humanismo, pela crença no futuro dos povos, pela sua ‘grande sensibilidade’, pela forma como aplicam ao romance – por exemplo – os princípios de um discurso na Assembleia Geral da ONU. O resultado é geralmente pobre.
Afonso Reis Cabral (Prémio Leya de 2014 com ‘O Meu Irmão’) atreve-se a lidar com uma história recente, a de Gisberta, um transsexual assassinado no Porto – em 2006 – por um grupo de adolescentes e pré-adolescentes. A explosão de ódio visceral, de violência e de enfermidade que marcam a história de Gisberta e da sua morte veio relatada nos jornais da época e chocou toda a gente. No entanto, Afonso Reis Cabral não quer transformar em ‘ficção literária’ o material jornalístico e processual disponível: essa paráfrase é apenas um exercício de estilo vulgar, e o autor de ‘Pão de Açúcar’ vai (e quer ir) mais longe – arrasta consigo a descrição da miséria e da degradação dos bairros, transporta-nos a uma violência latente e epidérmica que está omnipresente na vida das personagens. São miúdos que desconhecem a ‘violência de género’ mas que interiorizam toda a outra violência – a da repulsa, a da tentação, a do fruto proibido. E Gisberta é também um fruto proibido, um corpo disponível que está destinado a morrer de forma trágica.
‘Pão de Açúcar’ é, também, um romance sobre o mal. O narrador – o próprio escritor (ah, a autoficção) – acumula e redistribui os sinais dessa maldade como sedimentos, partículas que não se esquecem, uma espécie de memória genética que não depende de educação, condição social, preparação da sensibilidade. Está em todo o lado, como uma parte do corpo, mesmo quando lhe é apenas uma extensão. É por isso que o romance não agradará à corrente dominante das sociologias atuais: trata daquela sombra que não queremos conhecer e de que se extrai apenas a ‘lição moral’.

Livro ’Pão de açúcar’
Autor Afonso Reis Cabral
Editora Dom Quixote
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