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Correio da Manhã

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Outra leitura

Primeiro volume de biografia revela personagem complexa. Henry Kissinger é ‘reconstruído’ a partir da infância.
Francisco José Viegas 29 de Maio de 2016 às 15:00

Vamos retomar uma imagem grata à literatura: muitos anos depois, sitiado, o que recordaria daquele jovem Heinz criado nas ruas de Fürth uma cidade operária alemã em cuja sinagoga ortodoxa aprendeu hebraico e ídiche, em cujo estádio de futebol jogou e depois apoiou a equipa sénior – justamente até ao momento em que o regime nazi proibiu os judeus de frequentar estádios de futebol? Não só estádios de futebol. Toda a cidade de Fürth. O que sentiria ele, muitos anos depois, já como militar ao serviço do exército americano, no campo de concentração de Ahlem e, olhando para Moshe Miedzinski, um judeu esfomeado, torturado, lhe disse: "Está livre."? O que lembraria ele daqueles primeiros dias de liberdade na América, em que, com a família, percorria as ruas de Washington Heighs, em Nova Iorque, onde os judeus alemães eram considerados "yekkes", ultradisciplinados, conservadores em matéria religiosa, amantes da ordem?

Apenas seis anos depois a Alemanha, tomada pelos nazis (e de a sua família ter fugido para Nova Iorque), Heinz Kissinger é já Henry, soldado americano na Linha Siegfried, perto de Aachen, combatendo a Alemanha tomada pelos nazis. Depois, durante três longos anos após da guerra, Kissinger permaneceu na Alemanha para colaborar e se distinguir no programa de "desnazificação" da Alemanha. Voltaria depois a Fürth e ao cenário de Nuremberga, mas a memória desses anos – conta – era-lhe indiferente.

O idealista

Foi na guerra que conheceu o seu grande mentor intelectual, Fritz Kraemer, especialista em direito internacional, e que de certa maneira o levou a tornar-se um académico em Harvard.

Tudo o que disserem sobre Henry Kissinger está certo – sobretudo se for negativo, se servir para denegrir Kissinger, sobretudo se for insultuoso e ligar o seu nome a todas as malhas do "império do mal". Aliás, entre o "império do mal" e Kissinger não há propriamente diferenças: um construiu-se sobre o outro, e o académico, político e diplomata são obra de todo o mal disponível. Esta imagem não é absurda: marca todo o discurso anti-Kissinger desde os anos setenta até hoje e assenta em meias verdades, factos suspeitos, numerosas abordagens conspirativas e acusações nos jornais ou em "literatura comprometida".

A presente biografia de Kissinger é uma tentativa de reconstruir o percurso do académico, político e diplomata a partir da infância, acompanhando a sua vida académica até aos corredores e aos palcos do poder. Este primeiro volume ocupa-se dos anos que vão de 1923 a 1968 (ou seja, até à nomeação por Nixon para o Conselho de Segurança Nacional) e faz uma leitura oposta à corrente dominante: Niall Ferguson contesta a visão de Kissinger como representante malvado da corrente ‘realista’ – e, pelo contrário, escolhe para subtítulo a palavra ‘idealista’. Este primeiro volume é imperdível para quem se recusa a dizer banalidades sobre o assunto. E Kissinger – imaginem – é uma valente personagem.lD

 

autor Niall ferguson título ‘Kissinger. 1923-1968: O idealista’

editora Temas & debates

Disco

‘Kind of Blue’

Na semana passada, Miles Davis teria completado 90 anos. Retomemos um dos seus grandes clássicos, o disco de Miles Davis que mais me acompanhou, uma preciosidade de 1959 (eu nasceria três anos depois) onde se ouvem os superiores acordes de Bill Evans (piano), do baterista Jimmy Cobb, Paul Chambers (baixo) e dos saxofonistas

John Coltrane e Cannonball Adderley. Depois disto, toquem o que quiserem.

 

autor Miles Davis

disco ‘Kind of blue’

editora Columbia Records

Livro

‘Shakespeare’

Bill Bryson é um viajante e um erudito. Neste caso, o ensaio oscila entre a "experiência da leitura de Shakespeare" e o gosto pelo detalhe biográfico, divertind-nos ao expor as teorias mais estapafúrdias sobre o autor, divertindo-nos ao levar-nos em visita às suas próprias surpresas. De certo modo, é um documentário ‘on the road’ – ficamos a apreciar muito mais a excentricidade e a genialidade de Shakespeare.

 

autor Bill Bryson

livro ‘Shakespeare’

editora Bertrand

Concerto

Orquestra Sinfónica do Porto

A apoteose da música verdadeiramente clássica: Mozart e Brahms – que mais se quer num programa com a Orquestra Sinfónica da Casa da Música (direção de Leopold Hager)? Duas serenatas: a nº 1, de Johannes Brahms, e a nº 9, de Mozart – duas horas para aproveitar os primeiros sons da temporada musical de verão.

Bem a propósito.

 

local Casa da Música, Porto (sexta-feira, 21h00)

FUGIR DE:

Portugal

Não, não do país (mesmo que, por vezes, seja essa a vontade) – refiro-me à onda de

patriotismo futebolístico durante todo o mês de junho, no Europeu de futebol. A ditadura patriótica deve assentar arraiais esta semana, com seis canais de televisão, pelo menos, a acompanhar cada espirro, cada distensão muscular dos nossos bravos heróis. Pelo sim, pelo não, já assinalei na agenda as horas dos jogos. Todos os jogos, não vá o diabo tecê-las.

As Escolhas de Francisco José Viegas
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