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Correio da Manhã

Domingo
7

Ouvindo as vozes do além

Primeiro disco póstumo de Alan Vega, e décimo primeiro a solo, editado exactamente um ano após a sua morte.
20 de Agosto de 2017 às 11:35

Por Adolfo Luxúria Canibal

O nome de Alan Vega remete de imediato para o duo de electrónica minimalista Suicide, que em 1988 deu um inesquecível concerto nas ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa, para uma parca centena de felizardos, entre os quais me incluo, na sua única passagem por Portugal. Era o melhor do punk nova-iorquino, com a voz rockabilly de Vega a emergir, murmurada e tensa, das modulações repetitivas do primitivo e barato Vox Continental tocado insidiosamente por Martin Rev.

Mas nascido Boruch Alan Bermowitz em 1938, licenciado em belas-artes pelo Brooklyn College em 1967, Alan Vega foi muito mais do que isso: enquanto artista plástico radical, sob o nome de Alan Suicide, envolveu-se na cena artística de Manhattan pintando esculturas de luz construídas com resíduos de electrónica e o seu trabalho foi mostrado em galerias nova-iorquinas até aos anos 80.

DEPOIS A SOLO
A epifania foi o concerto que viu dos The Stooges em 1969: formou então os Suicide com o teclista Martin Reverby, que depressa criou fama de grupo violento pela forma como Vega confrontava a audiência, acabando os seus concertos, não raras vezes, em tumulto generalizado. Em 1977 é editado o primeiro álbum, homónimo, considerado o disco mais influente da época. O duo teve depois uma carreira intermitente até 2015, com mais quatro álbuns e vários discos ao vivo.

Já Alan Vega (tal como Martin Rev) teve uma copiosa carreira a solo, com uma dezena de álbuns editados, inicialmente muito focados no rockabilly. Vega voltaria à electrónica minimalista em ‘Deuce Avenue’ (1990), numa aproximação à sonoridade característica dos Suicide, direcção que prosseguiu nos discos seguintes e que se mantém neste novo álbum, editado um ano depois da sua morte, durante o sono, a 16 de Julho de 2016. Composto entre 2010 e 2015 ao acaso das suas deambulações nocturnas, é um álbum negro, uma crónica do niilismo contemporâneo e do barulho aterrador do mundo, num blues frio, minimalista, terrífico… Maravilhoso!

FILME
A MISSÃO DOS AGENTES ESPAÇO-TEMPORAIS
Baseado na fabulosa banda desenhada de ficção científica criada em 1967 por Christin e Mézières, o filme de Luc Besson não consegue reproduzir o psicadelismo retrofuturista da série, mas é uma avalanche tão desvairada de clichés visuais e efeitos aparatosos que acaba por ser um bom refresco de Verão.

DISCO
O EFEITO DA TECNOLOGIA NA MENTE HUMANA
Revelado no ‘À Sombra de Deus IV’ com um dos grandes temas da colectânea, e depois de editar dois EP e um álbum, o duo bracarense Ermo regressa com um espantoso novo longa duração, onde a electrónica cada vez mais consistente e complexa contracena com uma novel expressividade vocal "autotunada".

LIVRO
OUTRA TRADIÇÃO DAS CARTAS PORTUGUESAS
Reprodução das cartas escritas por Luiz Pacheco, durante 35 anos, ao seu mecenas Laureano Barros, coleccionador bibliográfico de Ponte da Barca, a pedir favores, a reflectir sobre a vida, a satirizar compadrios e mesquinhezas, a contar experiências pessoais, de onde emerge um retrato pessoalíssimo...

FUGIR DE
PIMBA AFRICANO

A grande música negra está na essência da maior parte da música popular contemporânea, do blues ao rap, do jazz ao rock, do reggae à música brasileira, e imiscuiu-se mesmo em cancioneiros aparentemente distantes, como é exemplo o trabalho de Zeca Afonso. Mas daí a, numa espécie de complexo de culpa colonialista, endeusarmos tudo o que vem de África...

E esta moda portuguesa de fazer do pimba africano, como o kuduro, cavalo de batalha de modernidade, deixa-me estarrecido – como é possível ouvir tanta inanidade junta, tanta piroseira?

The Stooges Alan Vega Martin Rev Manhattan
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