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Sentença dos seis milhões

‘Negação’ recupera o julgamento em que uma historiadora americana teve de provar que o Holocausto existiu.
João Pereira Coutinho 27 de Agosto de 2017 às 12:38

Acompanhei o caso ‘Irving vs. Lipstadt’ há mais de 20 anos. Não admira: era então estudante de História e as ‘questões judaicas’, que inevitavelmente lidam com o Holocausto, já ocupavam bastante espaço neuronal.

Uma historiadora americana, Deborah Lipstadt, tinha publicado o livro ‘Denying the Holocaust’ onde analisava o negacionismo da Shoah. E fazia observações críticas ao ‘historiador’ David Irving. Este, incompreensivelmente, não gostou de ser caracterizado como negacionista (escrevo "incompreensivelmente" pois, no caso dele, eu pensava que isso era um elogio). E processou Lipstadt pela ousadia.

Moral da história: Lipstadt teve de comparecer perante um tribunal britânico e, de acordo com os costumes legais nativos, provar que David Irving era um mentiroso profissional. Logicamente, e perversamente, isso também significava provar que o Holocausto realmente acontecera.

É esse ordálio que Mick Jackson filma com competência "BBC chapa cinco". Reuniu um conjunto de actores acima de qualquer mácula (Rachel Weisz, Tom Wilkinson, e o subestimado Timothy Spall no papel de Irving) a um argumento sóbrio e rigoroso (de David Hare, claro); deixando a história fluir na sua verdade.

O filme acompanha a angústia de Lipstadt ante a perversidade do caso; a inteligência da sua equipa de defesa, que se muniu de especialistas sobre o Terceiro Reich e que dispensou qualquer sobrevivente de testemunhar contra David Irving (não se vence uma indignidade cometendo outra); até ao veredicto – grande momento da historiografia contemporânea: o negacionismo do Holocausto não precisava deste julgamento e da absolvição de Lipstadt para colapsar; mas depois dele, a questão ficou arrumada na prateleira do neonazismo e da doença mental (uma redundância, eu sei).

Alguém dizia que desconhecer os erros da História é a forma mais eficaz de voltar a cometê-los. ‘Negação’ mostra que há coisas piores do que a ignorância; a mentira consciente e premeditada é certamente uma delas.

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