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Correio da Manhã

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Shakespeare, sempre

O mais recente filme de Kenneth Branagh mergulha na biografia do velho Will
João Pereira Coutinho 8 de Setembro de 2019 às 10:00
Filme de Kenneth Branagh
Filme de Kenneth Branagh FOTO: Direitos Reservados

Sabemos pouco sobre Shakespeare. Aliás, nem sequer sabemos se Shakespeare era Shakespeare. Isso interessa? Para os estudiosos, talvez. Para nós, leigos, amantes, entusiastas, as peças chegam e sobram.

Kenneth Branagh, que deve a sua carreira de actor e realizador às palavras do bardo, não se contenta com tão pouco. E no seu mais recente filme, ‘Toda a Verdade’, decide mergulhar na biografia do velho Will.

Estamos em 1613. O Globe Theatre, onde Shakespeare deslumbrou plateias com as suas comédias e tragédias, foi consumido pelas chamas. Mas a destruição do teatro é apenas o menor dos males. O maior de todos é que Shakespeare não voltou a escrever uma nova peça. Terá regressado a Stratford-upon-Avon para "cultivar o próprio jardim" nos últimos três anos de vida. Não apenas no sentido literal da expressão; também no sentido filosófico de que falava a personagem de Voltaire – aquele momento em que nos retiramos do mundo para cultivar as alegrias prosaicas e revisitar as memórias da vida.

O filme de Branagh e o excepcional argumento de Ben Elton são um exercício elegante de metaliteratura em imagens, permitindo revisitar os velhos temas do cânone: a erudição sobre-humana de Shakespeare; o seu alegado criptocatolicismo; a pulsão homoerótica presente na poesia.

Mas o filme permite igualmente conjecturar sobre temas mais vastos, que nos são próximos pela sua intemporalidade. Que lugar existe para o mérito numa sociedade aristocrática? Será possível conciliar harmoniosamente a "loucura da arte" e as obrigações familiares?

Por último, Branagh e Elton colocam no centro da história a morte do único filho rapaz de Shakespeare. O seu nome era Hamnet (as ressonâncias onomásticas com o famoso príncipe da Dinamarca são evidentes) e é também como fantasma que ele aparece a seu pai. Como se exigisse "toda a verdade" sobre o seu funesto destino – uma verdade que, como acontece nas peças de Shakespeare, está sempre ocultada por um exército de máscaras e enganos.

Encontrar essa verdade, por mais dolorosa que seja, permitirá ao autor o que de mais precioso existe para um ser humano: a possibilidade de (se) perdoar e de regressar verdadeiramente a casa.

LIVRO
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DVD
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Texto escrito na antiga ortografia

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