As ligações perigosas no mundo da moda e os segredos que atingem as estrelas das passerelles
Irmãs Bella e Gigi Hadid são apontadas como potenciais vítimas do predador. Milionário terá tentado comprar uma agência de modelos brasileira em 2016.
É o maior escândalo sexual contemporâneo no seio das elites e, a cada dia, o esmiuçar dos ficheiros do caso Epstein mostra novas ligações, que vão muito além do universo empresarial e político. Nada nem ninguém parece escapar incólume, numa teia de contactos e favores que abala também o mundo da moda. A própria lógica do setor – baseada em contactos, viagens e ‘networking’ internacional entre figuras, marcas, investidores e patrocinadores milionários – torna habitual a aproximação entre as beldades e os círculos do grande poder económico. Modelos internacionais, muitas delas menores de idade e eventualmente angariadas por outras figuras conhecidas do meio, frequentavam festas, eventos e viagens organizados por Jeffrey Epstein para os amigos.
Documentos analisados por jornalistas indicam que o milionário predador tentou inclusivamente comprar uma agência de modelos no Brasil, em 2016, através de um dos sócios, Ramsey Elkholy, segundo ‘O Globo’. Elkholy apresentou um relatório sobre três das maiores agências do país: Elite, Ford Models e L’Équipe. “Presumo que está mais interessado no acesso a [emoji de uma mulher]”, escreveu a Epstein, sugerindo que um concurso de modelos seria ideal por atrair “raparigas campónias e sem experiência”.
Os arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA sugerem ainda que Epstein servia-se, das mais variadas maneiras, de figuras influentes do meio: Naomi Campbell, as irmãs Bella e Gigi Hadid e as brasileiras Luciana Gimenez, Izabel Goulart e Luma de Oliveira.
Os segredos que atingem as estrelas das passerelles
O nome de Naomi Campbell surge cerca de 300 vezes entre os milhares de ficheiros libertados no mês passado pelo Departamento de Justiça dos EUA. Entre registos telefónicos e trocas de emails, não há indícios de crime, mas tudo indica que a supermodelo britânica, à semelhança de outras figuras ligadas ao mundo da moda, manteve contacto regular com o magnata norte-americano condenado por prostituição, tráfico e abuso sexual de menores.
Uma das conversas referenciadas está relacionada com a festa de aniversário de Campbell, em 2004, em Saint-Tropez (França), onde estiveram também presentes Ghislaine Maxwell (cúmplice de Epstein) e uma das vítimas com maior visibilidade da rede, Virginia Giuffre, vista a poucos metros da supermodelo.
Advogados da ‘top model’ britânica, hoje com 55 anos, negam que esta tivesse conhecimento de situações de abuso, mas a verdade é que os contactos mantiveram-se, com regularidade, mesmo depois da primeira acusação por aliciamento de menores e enquanto Epstein cumpria prisão domiciliária. Nessa época, era comum a modelo usar o jato privado de Epstein para deslocações pessoais, além de colaborarem em eventos.
Mas Naomi não é a única estrela das passerelles visada. Também o nome das irmãs Bella e Gigi Hadid vem à baila. Num email de 3 de dezembro de 2015, alguém questiona Epstein sobre a forma como as irmãs Hadid conseguiram ficar ricas e famosas em tão pouco tempo. Num tom desdenhoso e vulgar, ele demonstra que as conhece e responde que as irmãs “seguem instruções”, o que tem sido interpretado como favores, eventualmente de cariz sexual.
Já Les Wexner, antigo CEO de Victoria’s Secret, diz que foi “enganado” por Epstein: diz que era “vigarista” e “trapaceiro”. Todavia, o empresário (tem hoje 88 anos) é referido mais de mil vezes nos arquivos de Epstein. Giuffre (que se suicidou em 2025 depois de anos de luta pela verdade) alegou que este foi um dos homens a quem Epstein a traficoFoto de 2022
Brasil: um paraíso para aliciamento de 'meninas'
O Brasil tem estado na mira da polémica, por ser um dos países onde Epstein angariaria raparigas para as suas festas privadas e clientes, através de intermediários bem conhecidos. Um deles era o famoso agente de modelos francês Jean-Luc Brunel (morreu em 2022), que terá feito várias viagens a terras de Vera Cruz à procura de ‘meninas’ para o predador sexual.
A antiga ‘top model’ Luciana Gimenez, mãe de um dos filhos do cantor Mick Jagger, que conheceu numa festa, viu as suas contas bancárias no Deutsche Bank serem investigadas, por causa de transferências suspeitas. A manequim Luma de Oliveira, ex-mulher de EIke Batista (também agente de modelos), foi igualmente citada numa conversa em que Epstein queria saber quem era ela e se continuava ligada ao marido. Em emails agora divulgados, o milionário americano fala ainda de Izabel Goulart, ex-modelo da Victoria’s Secret: numa conversa com Boris Nikolic, em 2011, garante que ela ficou no seu apartamento, “quando veio pela primeira vez a Nova Iorque”. A antiga manequim, de 41 anos, já negou tudo.
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