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Prosa: A geração rasca

Uma daquelas notícias que aparecem na internet.
28 de Abril de 2015 às 17:00
geração arte, prosa
geração arte, prosa
Uma daquelas notícias que aparecem na internet. Uma daquelas quais em que ninguém lê nada senão o cabeçalho anunciava que "estudantes do secundário de hoje apresentam níveis de ansiedade equiparáveis aos dos de pacientes psiquiátricos dos anos 50 ". Como bom cepo que sou, marquei o visto como sensacionalismo, não li o resto da notícia, nem procurei a fonte. O que não me impediu de ficar muito transtornado e reflectir sobre a vida que levo. A minha e a dos meus.
Somos uma geração dita ingrata, sem capacidade de autocrítica, sem objectivos nem motivação, sem o mínimo orgulho em quem somos, sempre em busca da gratificação barata e imediata e, num extremamente complicado exercício de contrariedade, dizem-me que conseguimos ainda registar níveis de ansiedade notáveis e cada vez mais altos.

Cresci a ler e a jogar jogos em casa, com uma pessoa a quem chamava amigo e falava sobre livros e jogos, era o gordinho, caixa de óculos e não sabia jogar à bola. Dei o meu primeiro beijo muito depois dos meus colegas. Queria ser o puto loiro que fazia surf e a quem as miúdas mandavam mensagens. Tendi a tentar aproximar-me dessas pessoas e suponho que ainda tenda, de alguma forma estou mais confortável à sombra. Chegava a casa, muito transtornado e lá e tinha um livro, ou um jogo em que me perder, no qual me perdia e depois pedia outro aos meus pais.

Inseguro, a duvidar de cada passo que dava, ia tentando construir uma qualquer interacção significante, só para me deixar ir abaixo e não sair de casa durante três dias quando não era convidado para uma festa de anos, ou quando a miúda que eu achava que um dia ia namorar arranjava um namorado e todas as minhas entretidas noções de proximidade se desmanchavam nas esperanças de um miúdo que não acreditava em si mesmo mas preferia não sair da sua página de
conforto. Nunca me faltou amor em casa, nunca, mas quando tens 13 anos e és gozado na escola, é daqueles putos que te gozam que tu queres aprovação, não é da tua família, que tu sabes que vai lá sempre estar. Só queremos que gostem de nós.

Já que não era o miúdo fixe cresci a ser o miúdo útil, o que tinha conselhos, o que se preocupava com os outros, a melhor amiga de toda a gente, o que ajudava nos trabalhos de casa e safava o pessoal nos testes, agora ciente de que sempre o fiz com o maior egoísmo finamente mascarado "gostem de mim, eu preciso da vossa validação". Era assim que era. Perdi peso, obrigado puberdade, cortei o cabelo e comprei roupa nova. A forma como as pessoas me viam mudou mas a minha imagem de mim, não. O meu padrão mantinha-se. Relações superficiais, muitas, eu ajudo, eu trato, por favor gosta de mim. Esta tendência diluiu-se nos meus dias até ao ponto em que já não consigo distinguir quando quero genuinamente ajudar alguém. Penso sinceramente que nunca quis. Eu fui-me construindo assim.

Faço parte de uma geração sem exemplos. Peço desculpa, faço parte de uma geração com demasiados exemplos. Crescemos com o advento das consolas, da Internet, dos jogos online, do escape numa cadeira num quarto fechado do qual só se saía para comer e ás vezes nem para isso.
Um mundo tão melhor e tão sem complicações mesmo ali num ecrã brilhante. Não te dá um abraço enquanto choras, não te pergunta se está tudo bem e não passa uma tarde num parque contigo.
Mas foda-se se não sabe bem matar o mau e explodir um castelo das costas de um dragão que ainda por cima é vermelho. Os nossos anos formativos foram passados a fugir e esconder, porque é tão fácil virar costas aos sentimentos e às dificul
dades de crescer. Na maior virtude da infância, refugiamo-nos num ideal mundo de imaginação onde somos o príncipe a matar o vilão, salvar a princesa e ser o herói do reino. Cá fora passamos uns pelos outros na rua e não nos falamos. Se
alguém nos aborda na rua, temos medo, temos medo do contacto porque crescemos sem ele. Como eu há mais centenas de milhares. Somos uma geração sem objectivos, sem motivação, sem o mínimo orgulho, sempre em busca da gratificação barata e imediata. Precisamos de exemplos.

Precisamos de ajuda, precisamos de um modelo, precisamos de gente disposta a dar o cu. Está tudo despersonalizado. Formatado para nos enfiar conhecimento técnico-específico na cabeça e produzir, sem um momento, um único piscar de olhos, para parar e pensar em quem está ao nosso lado e no que de facto queremos fazer com a nossa vida.

Vemos alguém chorar na rua e não nos aproximamos. Um empregado de mesa não perdoa cinquenta cêntimos na conta de uma família porque sabe que pode ser despedido no instante a seguir. Estamos a perder a bondade. Tenho saudades das pessoas que adorava e que perdi porque não soube lidar com elas, como seres humanos que eram, por não me conhecer como ser humano que sou.

Nos últimos dois anos o padrão tem vindo a mudar. Tento rodear-me de amigos, tenho sempre um livro na mala, mas os livros já não são um refúgio,são o que sempre deveriam ser, uma paixão e momento de descontracção. O refúgio são os amigos, as relações, falar e rir e procurar saber dos outros como queremos que queiram saber de nós. As amizades puxam o melhor das pessoas. Olha para o lado, tu és o exemplo daquele gajo que viste chorar porque está mal com a namorada e a quem foste dar a mão. Aquele gajo que mora num apartamento do tamanho da tua sala, sem mãe, que às vezes vai para a faculdade sem passe para poder comer e que tem as melhores notas do ano dele e ainda te ajudou num exame, esse gajo é o teu exemplo.

Olha para o lado e vê a rapariga bem vestida, maquilhada, de quem todos os teus amigos falam e procura ver para além da aparência. Essa miúda que todos os dias põe uma armadura e tem a maior personalidade de todas, chega a casa, ouve o pai gritar com a mãe e chora até adormecer. Ninguém diria. Ela é tão confiante. Ela é o teu exemplo.

Somos uma geração ingrata. É normal. Não sabemos lidar com nós mesmos, como poderíamos saber lidar com os outros se não nos conhecemos ?

Olha para o lado.

" Sinto o mesmo, a diferença é escolher deixar-me levar pelas minhas iseguranças e falar sobre elas "
" Cala-te puto. Vai fazer o que te disse, vai lá falar e depois conta-me como correu "
" Está tudo bem pequenino, anda cá "

Olha para o lado e um dia pode ser que te vejas ao espelho.


Texto enviado pelo participante André Filipe Lagoa Costa, 22 anos, de Almada.

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Votação fechada. Vê os resultados na fanzine publicada com o Correio da Manhã de dia 30 de abril. Entretanto, recordamos que o concurso é mensal e contamos com os teus trabalhos (vê aqui o regulamento). 

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