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Prosa: Nunca se morre por inteiro

O meu avô morreu. Podia ser só isto: morreu – e acabou.
1 de Setembro de 2015 às 18:00
geração arte, prosa
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O meu avô morreu. Podia ser só isto: morreu – e acabou.

Mas o certo é que nunca se morre por inteiro. Lá que o coração pare e o corpo se desfaça, as pessoas não morrem inteiramente. Para onde vão – não sei –, o que fazem – desconheço -, mas o que é certo é que nos continuam a assaltar em imagens intermitentes, roubando lágrimas, devolvendo sorrisos. Mesmo aquando a morte as pessoas continuam a existir em pequenas fracções de memória.

Lembro-me então do meu avô: comerciante de profissão, pai de sete filhos, conhecedor de Portugal, sempre convicto que a morte não era para ele. Dizia que a postura e a imagem, mesmo quando distorcida da realidade, era o que nos safava na vida. Dono de toda a sua sabedoria, percorria pelo pais fora a oportunidade de negócio. Era um homem de contas: adormecia no carro com a boina à cabeça e de caderno ao volante, debaixo de uma azinheira. Resistiu a dois acidentes vasculares cerebrais, mas foi o cancro que lhe ditou os últimos dias de vida. Sempre o conheci com os seus passos vagarosos sobre a calçada que me viu crescer. Costumm dizer que o descanso eterno existe, mas para o meu avô não: o meu avô, onde quer que esteja, certamente que não pára.

Hoje, tudo o que sobrou do meu avô aflige-me. Não me refiro à parte dele que morreu, mas sim ao que dele vive em mim. Não vou chorar o que não volta, choro apenas o que não se liberta, choro as palavras incutidas, o sorriso desvanecido, os gestos com as mãos. Sinto que nunca se morre sozinho, que parte de mim também morreu. É irremediável. Se o que nos rodeia nos preenche, então a ausência também nos mata.

Enquanto houver memória, ninguém morre por inteiro.

 

(O autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico)

Texto enviado pelo participante Gonçalo Emanuel Santos Neves, 25 anos, Pombal

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