Rússia avisa para "efeito dominó" de saída polaca de acordo sobre minas

Polónia juntou-se à Finlândia e aos três países bálticos que também abandonaram o acordo e estão a criar uma barreira defensiva desde o Báltico até ao Ártico.

20 de fevereiro de 2026 às 13:12
Porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova Foto: Pavel Bednyakov/AP
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A Rússia advertiu esta sexta-feira que a saída da Polónia da Convenção de Otava sobre a proibição de minas antipessoal pode desencadear um "efeito dominó" e ameaça agravar as tensões na Europa.

A Polónia deixou esta sexta-feira de ser signatária da convenção, após um período de seis meses depois de ter notificado as Nações Unidas, e anunciou que pretende produzir minas antipessoal para se defender em caso de agressão militar.

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"As consequências de tais ações não tardarão. Além do enfraquecimento da própria convenção, estes passos poderão levar a um 'efeito dominó', com outros países a seguir o exemplo", afirmou a porta-voz da diplomacia russa.

Maria Zakharova disse que, perante tal cenário, países da União Europeia (UE) com indústrias de defesa desenvolvidas, que não nomeou, já estavam "a tentar lucrar financeiramente com a satisfação da crescente procura de minas antipessoal no mercado internacional".

"Todas estas circunstâncias conduzem inevitavelmente a uma nova escalada de tensões na Europa e a uma deterioração da situação de segurança regional e internacional", acrescentou Zakharova, citada pela agência de notícias russa TASS.

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A Polónia juntou-se à Finlândia e aos três países bálticos (Estónia, Letónia e Lituânia), que também abandonaram o acordo e estão a criar uma barreira defensiva desde o Báltico até ao Ártico.

Os países em questão são membros da NATO e da UE.

Varsóvia justificou a decisão de abandonar a Convenção de Otava, de que a Rússia não é signatária, com a degradação da segurança no flanco leste da NATO e o desenvolvimento do projeto defensivo "Escudo do Leste".

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O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, justificou na quinta-feira que a Polónia necessita de "todas as ferramentas disponíveis" para garantir a segurança do país.

Tusk disse também que o projeto "Escudo do Leste" permitirá minar a fronteira "em apenas 48 horas" em caso de ameaça iminente, como resposta à invasão russa da Ucrânia e às "guerras híbridas" na região.

O "escudo" é uma iniciativa defensiva polaca que se estende por 700 quilómetros e está avaliada em cerca de 2,3 mil milhões de euros, segundo a agência de notícias espanhola EFE.

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O ministro da Defesa polaco, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, enquadrou a saída do tratado numa lógica de equilíbrio militar com Moscovo.

Afirmou que a Polónia "não pode aceitar uma assimetria" criada por restrições humanitárias, enquanto a Rússia utiliza minas em massa na Ucrânia.

Segundo o Governo de Kiev, a Ucrânia tornou-se "o país mais minado do mundo" devido à invasão russa de há quatro anos.

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A Polónia garantiu que as novas minas serão concebidas para uso estritamente militar, com mecanismos de autodestruição e mapas precisos dos campos minados.

Organizações humanitárias e setores da oposição polaca criticaram a medida, por considerarem que aumenta o risco para civis e migrantes que atravessam clandestinamente a pé a fronteira a partir da Bielorrússia.

A Polónia tem uma fronteira de mais de 3.500 quilómetros com sete países, incluindo a Bielorrússia (416 km), a Ucrânia (520 km) e o enclave russo de Kaliningrado (210 km), além de uma zona costeira no mar Báltico.

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O país tem sido um dos mais ativos no apoio à Ucrânia desde o início da guerra, em 24 de fevereiro de 2022, ao acolher milhões de refugiados e fornecer armamento e outro tipo de ajuda a Kiev.

A Convenção de Otava entrou em vigor em 01 de março de 1999, e foi ratificada por mais de 160 países, mas não por potências como os Estados Unidos, a Rússia e a China.

O acordo internacional proíbe o uso, armazenamento, produção e transferência de minas antipessoal, e prevê a destruição deste tipo de armas e a assistência às vítimas.

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Desde o final da década de 1990, mais de 55 milhões de minas foram destruídas e mais de 30 países, incluindo Moçambique, foram considerados livres dos engenhos.

Angola, também signatário da Convenção de Otava, tem em curso operações de desminagem em quase mil áreas identificadas, na sequência da guerra civil de 27 anos que terminou em 2002.

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