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Correio da Manhã

Eu Repórter CM
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Eu, Beatriz…

Hoje sou residente na minha terra e mera estudante em terras albicastrenses.
28 de Março de 2015 às 17:15
Vista do Castelo em Castelo Branco
Vista do Castelo em Castelo Branco FOTO: Câmara Municipal de Castelo Branco

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Não acredito que novamente estou atrasada! Empurrei os quatro cobertores que me fizeram companhia a noite toda. São tempos frios, uma terra gelada. A brisa da manhã é como gelo sobre mim. Ai este vento da serra!

Após um pequeno-almoço atribulado, pego nas minhas coisas, corro até à porta, desço as escadas quando me deparo que me esqueci dos cadernos. O circuito repete-se. Volto para cima, pego nos cadernos, corro para a porta e desço as escadas. As minhas manhãs não são diferentes das outras pessoas. Estudantes, Médicos, Engenheiros, entre outros, correm pelas escadas abaixo. Parecemos todos loucos pela hora tardia. Apenas se ouvem respirações aceleradas e correrias pelas escadas. Nada mais.

Este filme vejo-o todas as manhãs, já para não falar do trânsito e das demoras perdidas na rua. Os meus pensamentos fazem-me companhia até ao meu destino. Sou só eu que quando caminho olho para o chão e simplesmente penso?

Bato à porta, arrasto uma cadeira levemente e, finalmente, sento-me. Por vezes nem sei por que saio de casa se aprendo mais escrevendo. Acreditem! Esta vida de estudante é muito bonito de se dizer, mas nem todos têm a nossa vontade e muitas vezes não fazem valer o nosso esforço. Ora um bocadinho de esforço financeiro, ora um pouco de esforço emocional, ora vêm as saudades, ora vêm as amarguras. Pensando bem, deveriam fazer valer esse esforço todo, mas lá continuo sentada na cadeira a ouvir, ouvir e ouvir.

Voltando a falar de correrias, lá vou eu para casa almoçar. Nem sinto o sabor da comida, já para não falar que de estaladiça não tem nada. Por vezes engano-me e grito: "mãeeeeeeeeeee chegueiiiii". Evidentemente que logo me apercebo que vivo sozinha.

Volta a correria para o meu destino. Desta vez ainda mais monótono é o ambiente. Odeio rotinas! Será que ninguém entende isso?

Regressando a casa, com a brisa ainda mais fria. Já está escuro, a noite cai.

Não! Desta vez não grito pela minha mãe, também não sou assim tão esparvoada.

Desta vez sobe-me o peso das tarefas: ora limpo a loiça, ora lavo roupa, ora faço a cama que não deu tempo de fazer pela manhã, entre outras coisas horríveis que se faz quando se é adulto. Sabem, a minha maior desilusão acho que foi mesmo esta. Isso de ser adulto é horrível: ora pensas se te falta algo em casa, ora pensas se tens dinheiro, ora pensas em trabalho, ora pensas que não tens trabalho, ora pensas que não serves para nada. Sim! É literalmente um HORROR. Eu começo a achar que estive a minha vida toda a estudar para nada: ora és muito inteligente ora dobrar calças, ora és muito burro ainda para exerceres a tua profissão, ora nem te dizem nada.

Deixando agora de lamentações, amanhã visito a minha terra. Desta vez o problema é outro. Isso de viver sozinho e regressar a casa… Ora não é assim que se faz as coisas e lá ressalto e afirmo: "mãe mas eu costumo fazer assim". Vá admitam que isso não se passa só comigo.

No meio de tanta confusão, o que realmente me mais faz impressão é esta coisa de malinhas para a frente malinhas para trás. As minhas mãos morrem de dores de acartar malões e malões. Horrível novamente!

De regresso a terras frias, volta a rotina: correrias e correrias, brisas frias e brisas frias. Mas será que alguém não reconhece todo esse meu e nosso esforço? Querem vir um dia para o meu lugar? Claro que não querem, eu bem sei. Em vias de ser Educadora, assim vão passando os dias de um estudante longe de casa: ora com pressas, ora com escrita, hoje ninguém reconhece aquilo por que se passa. Hoje sou residente na minha terra e mera estudante em terras albicastrenses. É com esta indiferença e frieza que nos observam ou não. Afinal sou o quê?

Texto: Beatriz Moreira da Silva, de 21 anos, estudante da Escola Superior de Educação de Castelo Branco
Beatriz residente estudante albicastrenses
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