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Correio da Manhã

Eu Repórter CM
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O reverso da medalha

E a cobertura de TV das Olimpíadas? Bom, o jornalismo desportivo é um dos mais vulneráveis ao cliché. Por uma semana, ouvimos que "Phelps continua imparável". Com 7 canais lusos a noticiarem os resultados 6 vezes ao dia, aturámos o chavão 294 vezes (um cliché mais imparável do que o próprio Phelps).
24 de Agosto de 2008 às 00:30
O reverso da medalha
O reverso da medalha

E o vício do paroquianismo ainda respira: é imprescindível informar que o atleta nacional ficou, digamos, em quinto – mas sem escamotear os nomes dos três primeiros. OK, a miopia patriótica não é só nossa: o ‘New York Times’ (o melhor jornal do Planeta) publicava o quadro classificatório pela soma das medalhas (no qual os EUA estavam na frente) e não pelas medalhas de ouro (no qual a China imperava). Às tantas, tornou-se impossível manter a cantilena da nossa falta de sorte, da escassez de apoios, da ‘pressão’.

O presidente do COP (e Vanessa Fernandes e Rosa Mota) ralhou com os chorões. Habituados aos mantras consoladores, alguns repórteres foram apanhados no contrapé – e, já que estavam na China, fizeram um sorriso amarelo. Perto do fim, outra reviravolta, desta vez auspiciosa: Nélson Évora dourou (literalmente) a pílula. Porém, ao interromper a programação para um directo da proeza, o comentador da Sport TV tergiversou um tempão, e depois anunciou-a numa voz patibular! Raios, Pequim foi um puro espectáculo de TV!

Já na cerimónia de abertura, os Chineses encenaram um ventriloquismo com as miúdas que interpretaram a ‘Ode à Pátria’: a voz era de uma e a cara de outra (e depois ainda dizemos que os Chineses são todos iguais…). O realizador confessou que inúmeras das belas imagens, que julgávamos ‘espontâneas’, tinham sido montadas em computador. Para projectar o pavilhão de basquete, a China contratou o arquitecto David Manica, autor da arena dos Houston Rockets – a equipa do ídolo Yao Ming –, e importou toda a organização da NBA (incluindo cheerleaders loirinhas!). E o tal ‘espírito olímpico’?

O grande Obikewlu pediu-nos perdão! Falhar uma medalha é um lapso moral? Os Jogos estimulam-nos (atletas ou não, adultos ou crianças) a pensar que só seremos felizes se formos vencedores – mesmo nas pequenas coisas do quotidiano. Nesta corrida do ouro e do aplauso, o importante é vencer – competir e perder é aviltante. O recinto onde ficavam os nadadores antes das provas, taciturnos e entreolhando-se de esguelha, era chamado ‘a sala da morte’. Quem perde, morre. Desopilemos: eis a melhor piada que ouvi (no Eurosport). Na borda da piscina, o juiz para o fenómeno em roupão: "Mr. Phelps, o senhor quer a medalha agora ou prefere nadar antes?"

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