Correio da Manhã

Quando Zenha abriu guerra a Soares para tentar chegar a Belém
Foto Bruno Peres/Arquivo CM
Foto Direitos Reservados
O cartaz da campanha presidencial de Salgado Zenha, em 1985
Foto Bruno Peres/Arquivo CM
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Por José Carlos Marques | 11:50
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Candidatura custou o rompimento de uma amizade de décadas entre os dois fundadores do PS.

A história de uma das grandes ruturas do partido socialista tinha começado a desenhar-se na segunda eleição de Ramalho Eanes para a Presidência da República, no início dos anos 80. Francisco Salgado Zenha estava entre os que defendiam que o PS deveria apoiar o general, Soares, secretário-geral do partido, entendia que não. Os primeiros fizeram vingar a sua vontade e os socialistas apoiaram mesmo Eanes no plebiscito de 1981.

Depois, vieram os governos de Bloco Central, com Zenha sempre avesso aos acordos que Soares ia forjando com Mota Pinto, então líder do PSD. Mas a rutura definitiva entre os dois amigos, que desde os anos 60 militavam juntos na oposição à ditadura e que tantas vezes estiveram presos, juntos e em separado, acontece em 1985. 

A 12 de novembro, Salgado Zenha formaliza a sua saída do Partido Socialista, do qual fora um dos fundadores, em 1973. Três dias depois, o advogado apresenta a sua candidatura à Presidência da República, com o apoio do PRD (partido que nasceu da iniciativa do Presidente Ramalho Eanes) e, mais tarde, do PCP, que retirou o seu candidato para apoiar Zenha antes da primeira volta. Soares já estava em campo desde o verão e não viu com bons olhos a concorrência que se abria à esquerda, onde Maria de Lurdes Pintassilgo já ameaçava roubar muitos votos.

Quando Soares e Zenha se encontraram para o debate da campanha presidencial, em dezembro de 1985, o ambiente entre os dois não podia ser mais gelado. Soares ficou estarrecido quando o homem que era até há pouco tempo um dos seus melhores amigos insistiu em tratá-lo por "dr.", abandonando o "tu" de toda a vida. O tom crispado da discussão marcou o fim da amizade. Nas eleições de janeiro, Soares bateu Zenha por cerca de 300 mil votos e ganhou depois a segunda volta das presidenciais a Freitas do Amaral.

Francisco Salgado Zenha retirou-se da vida política e dedicou-se à advocacia, a sua profissão de sempre. Nunca fez as pazes com Mário Soares. Morreu em 1973, aos 70 anos.

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