Prosa: Leva o que te falta...

Sentei-me à sua beira e contemplei toda a sua graça.

28 de abril de 2015 às 17:00
geração arte, prosa
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Sentei-me à sua beira e contemplei toda a sua graça. Lentamente, entrei na sua vida e percebi o quanto escondia o seu olhar. Mantinha-se imóvel, ao mesmo tempo, que o seu rosto dava sinais de cansaço e solidão. Tinha tanta vida em si e tanto para contar. Olhava-me com estranheza com medo do que eu pudesse fazer com as suas palavras, essas que o tempo continuava a transportar com a mesma veracidade e sabedoria. Sentei-me por acaso, não havia nada que pudesse temer.

Julgamos sempre que não precisamos de novas conversas, de novos exemplos que orientem a nossa vida e de novos rostos. Enganamo-nos quando, constantemente, subestimamos aquilo que vemos e aqueles que cruzam o nosso caminho. Afinal, os problemas são só nossos e submetidos a tanto stress e pressão acreditamos que ninguém pode fazer nada por nós. Talvez não possa, talvez aquele rosto, que agora se encontrava a meu lado, não me pudesse dar mais do que as suas meras palavras, mas para quê ignorar a diferença que elas podiam trazer à minha vida? Poderiam fazer tanto por mim da mesma maneira que escutar a sua voz poderia dar-lhe um novo alento.

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As suas mãos permaneciam quietas, talvez exaustas da vida que carregavam. Já tinham passado por tanto, já tinham tocado tantos lugares e pessoas que hoje poderiam escrever a sua própria história. Olhou-me, novamente, com medo mas prometi não gastar muito do seu tempo. Falou-me da vida. Falou-me daquilo que sabia ser o amor. Rapidamente, os olhos inundaram-se de dor como se tivesse perdido uma grande parte de si. Fitou o lugar onde nos encontrávamos e voltou a perder-se no silêncio. As lágrimas percorriam-lhe o rosto triste e antigo; quis segredar-me a sua história e, sem desviar o olhar da paisagem, deixou-se embalar pelo seu passado. "Não esperes muito", disse-me de forma convicta. "Já perdi tanta coisa na vida por esperar, passivamente, por aquilo que desejava, que o tempo foi construindo em cima de mim uma inocência que ainda hoje me assusta. Perdi-me em tantos pensamentos, em tantos lugares e na presença de tantas pessoas."

As suas palavras deslizavam perante os meus olhos e, mesmo separados por anos de história e vida, identifiquei-me com tudo o que dizia. Um brilho apaziguador desmanchava o seu rosto triste à medida que relembrava a sua juventude apaixonante e inócua. "Lembro-me dela. Mas lembro-me, sobretudo, da pessoa que era com ela. Hoje não me reconheço e, por mais vontade que tenha de voltar a ser assim, o tempo dos amantes acabou para mim. Lembro-me dela, sabes? Levava-a a passear pelos jardins que agora servem de abastecimento a uma sociedade consumista, sem tempo para a vida e a reflexão. Ambos passeávamos lado a lado e refletíamos porque era também assim que cultivávamos aquilo que sentíamos um pelo outro. Tínhamos tempo para tudo, inclusive o silêncio, e era nele que as melhores palavras eram pronunciadas." Fez, novamente, uma pausa e observou-me. Talvez esperasse por alguma recetividade da minha parte a tudo aquilo que dizia ou talvez bastasse acomodar-me naquela ausência de palavras em sinal de compreensão. Desviou o olhar e continuou: "Lembro-me dela como se fosse hoje: do seu olhar requintado e tímido, do seu sorriso terno, do seu corpo elegante e, tantas vezes, seguro de si mesmo. Lembro-me de tudo o que sentia quando a via e da sorte que era poder tê-la nos meus braços. Gostava de preencher as linhas do seu corpo como forma de a proteger de tudo o que a podia magoar. Gostava de levá-la a conhecer novos lugares, sempre tão nossos e cheios de mistério. Gostava tanto dela mas acho que nunca o soube verdadeiramente, tudo porque me deixei levar pela metade. Por metade das palavras, metade dos gestos e metade de mim."

Numa tentativa de quebrar a distância que nos separava, segurou a minha mão e, longe de adivinhar o que se sucederia, olhei-o fixamente esperançosa de o puder ajudar. Os seus olhos encheram-se de lágrimas e o seu rosto parecia lavar-se de toda aquela angústia que sentia. Não queria entregar a sua dor ao silêncio que imperava, mas também não sabia o que fazer. Subitamente, largou a minha mão e limpou a face como se as suas forças tivessem chegado em peso.

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" – Vês como me encontro? Encurralei-me nos meus próprios sentimentos e, mesmo que não queira, viverei assim para sempre. Perdi-me, admito! Guardei para mim o melhor que tinha e agora sou o único responsável pelo meu fracasso. O que vale é que estas palavras ainda podem servir de alguma coisa: pega nelas e vai, vai fazer melhor. Ah… e leva isto! Leva o que tenho e até o que não tenho. Leva o que te falta e vai acrescentado à medida que a vida te dá o que necessitas. Mas não te esqueças, leva sempre isto porque de nada te servirá pegares nas minhas palavras sem as acompanhares com um boa dose de atitude.

Levantei-me e parei por uns segundos. Inspirei e deixei o ar sair. Não queria ir embora sem dizer nada mas acreditei que nem sempre é preciso haver um diálogo para que as duas pessoas falem entre si. Bastou escutá-lo e fazer o que me pedia.

O sol começava a pôr-se e, sem hesitar, caminhei no sentido contrário ao que me encontrava, ciente de que aquele era o caminho que tinha de percorrer sozinha. Já longe parecia ouvir a sua voz que, mesmo sem forças, ecoava naquele lugar aberto e inesquecível: "E mais uma coisa: o verdadeiro amor é doce e começa por nascer em ti."

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Texto enviado pela participante Renata Isabel Fernandes da Cunha, 18 anos, de Braga.

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