Prosa: Uma geração esquecida
Erikson postulou uma teoria acerca do desenvolvimento humano em oito estágios psicossociais.
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Votação fechada. Vê os resultados na fanzine publicada com o Correio da Manhã de dia 25 de junho. Entretanto, recordamos que o concurso é mensal e contamos com os teus trabalhos (vê aqui o regulamento).----------
Erikson postulou uma teoria acerca do desenvolvimento humano em oito estágios psicossociais. Os primeiros quatros estágios são decorrentes do período de bebé ao decorrer da infância, e os últimos estágios são referentes à idade adulta e a velhice. No entanto, este enfatiza a importância da adolescência, visto que a transição entre o período de adolescência e idade adulta é um fator de grande relevância para a formação da personalidade do sujeito. Erikson apresentou os estágios em termos de qualidade básica do ego que surge em cada estágio, discutiu as forças do ego que surgem nos estágios sucessivos e descreveu a ritualização peculiar de cada um. Este era por ele referido como uma maneira lúdica e culturalmente padronizada de experienciar uma vivência na interação quotidiana de uma comunidade. Cada idade ou período de desenvolvimento é caracterizado por tarefas específicas (que é necessário cumprir para se progredir para o estado seguinte) e pela experiência determinado conflito, ou crise. É através da resolução do conflito de cada estádio que o indivíduo adquire novas capacidades, que se desenvolve. A resolução positiva, favorável, da crise constitui uma aquisição positiva que se manifesta a diferentes níveis: psicológico, emocional e social. A teoria de Erikson é uma conceção psicodinâmica dado que considera que o ajustamento (experiências positivas) ou desajustamento (experiências negativas) não são situações definitivas. As experiências em fases subsequentes podem contrariar as vivências tidas em idades anteriores.
A 8ª Idade (Integridade VS Desespero – mais de 65 anos) diz-nos que, se o envelhecimento ocorre com sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido, sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos haverá integridade e ganhos, do contrário, um sentimento de tempo perdido e a impossibilidade de começar de novo trará tristeza e desesperança.
A afiliação, o prestígio e o sucesso são, certamente, motivos de integração. Contudo, se a tristeza, a angústia, o nojo, o desprezo (por parte da família e de amigos), o medo, a vergonha e a insatisfação já eram motivos de desespero, considerados por Erikson, agora tenho a certeza que os motivos aumentaram.
Recentemente encontrava-me numa sala de espera. Numa sala de espera onde a única jovem era eu. Eu com vinte e um anos naquela sala de espera, rodeada de tristes caras. Eram todos idosos, cada um com um rosto de tristeza. Cada um com uma expressão diferente. Eu observava fixamente as expressões de cada um. Cada um tinha uma dor, tal era a dor que ninguém levantava os olhos do chão. Aquele chão devia estar polido de tristezas, de segredos e desabafos sussurrados. Senti-me ridícula. Ridícula por ver semelhantes tristezas e semelhantes solidões. Este país, este mar de gente dura e fria esquecem-se de quem precisa de conforto e companhia. Abandonam os seus, aqueles que cuidaram de nós. Perdemo-nos preocupados com uma crise, mas uma crise é passageira, vem e vai, vem e vai. Nós quando "formos" não voltamos. Perante isso, tive vontade de me dividir em mil. De abraçar, ouvir e acolher cada um. Fazer com que sobressai-se daqueles rostos, tristes e enrugados, um sorriso profundo e uma alegria imensa.
Os meus sinceros parabéns aos licenciados, mestres e doutorados pelos seus cargos imensos. Eu preferia não frequentar qualquer licenciatura, do que ver uma geração a ser esquecida e abandonada, mas a vida não me permite. Não me permite, porque eu tenho de cuidar de quem me cuidou e amar quem me amou. Lamento ver fins de vidas tristes e solitários, mas desejo que todas as lágrimas fruto dessa tristeza e dessa solidão caiam sobre a cara de quem as provocou.
Chamaram-lhe de louco, com diversas personalidades, mas afinal Fernando Pessoa tinha razão quando disse que "Deus costuma usar a solidão para nos ensinar sobre a convivência. Às vezes, usa a raiva para que possamos compreender o infinito valor da paz. Outras vezes usa o tédio, quando quer nos mostrar a importância da aventura e do abandono. Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar sobre a responsabilidade do que dizemos. Às vezes usa o cansaço, para que possamos compreender o valor do despertar. Outras vezes usa a doença, quando quer nos mostrar a importância da saúde. Deus costuma usar o fogo, para nos ensinar a andar sobre a água. Às vezes, usa a terra, para que possamos compreender o valor do ar. Outras vezes usa a morte, quando quer nos mostrar a importância da vida".
Fomos grandes, agora somos um país pequeno. Pequeno por nossa culpa, por nos termos esquecido de quem nos fez chegar até aqui. Aos que observam e ignoram, desejo-lhes cegueira, aos que ouvem apelos e ignoram, desejo que fiquem surdos, aos que querem falar e nunca falaram, desejo que não falem mais, mas aos que entenderam o valor dessa "mensagem", sinceramente, desejo que finalmente "levantem e esplendor de Portugal".
Texto enviado pela participante Beatriz Jordão de Sousa, 21 anos, de Castelo Branco.
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