Homepage interativo A nossa guerra em África Partilhar

A nossa guerra em África

Naquela que é considerada a missão mais perigosa desde o fim da guerra colonial, os militares combatem grupos rebeldes na República Centro-Africana.

Texto Sérgio A. Vitorino
Imagens André Germano e Exército Português

Naquela que é considerada a missão mais perigosa desde o fim da guerra colonial, os militares combatem grupos rebeldes na República Centro-Africana.

Texto Sérgio A. Vitorino
Imagens André Germano e Exército Português

O termómetro marca quase 40 graus. O pó entranha-se. Bambari está a ferro e fogo com os ataques do grupo armado UPC, que mata polícias e faz dezenas de feridos. São duas da tarde de 10 de janeiro e uma centena de militares portugueses, capacetes azuis da ONU, saem da base - a que chamam ‘campo Aveiro’, origem do 2.º Batalhão de Infantaria Paraquedista - e dão início à operação ‘Wrangler’. Objetivo: expulsar máfias armadas de Bambari, a segunda maior cidade da República Centro-Africana.

"Financiam-se ao cobrar impostos ilegais, extorquir civis, traficar armas e controlar rotas de transumância e minas de ouro e diamantes", explica o major Borges, da 4ª Força Nacional Destacada, unidade de reação rápida da missão das Nações Unidas. "Os portugueses são a arma secreta da MINUSCA. Vitais", diz ao CM Parfait Onanga-Anyanga, representante especial de António Guterres - o português que é Secretário-Geral da ONU - na RCA.

O grupo armado UPC (sigla bizarra para União para a Paz na RCA) tem currículo de massacres. Em novembro matou meia centena de católicos, entre eles um bispo, no adro da igreja de Alindao, a 120 quilómetros de Bambari. Cidade de 40 mil habitantes que não escolheu por acaso.

"A MINUSCA tentou fazer de Bambari um exemplo sob controlo do Estado [o governo só tem poder sobre 1/5 do país]. Já a UPC quis demonstrar que tinha capacidade para controlar a cidade. E com ela os vastos recursos da região e as estradas, fulcrais para o país [do tamanho da Península Ibérica e apenas 4,6 milhões de habitantes]", descreve o tenente-coronel Óscar Fontoura, comandante da Força Nacional Destacada (FND).

Bambari é um eixo de mercadorias para a capital, Bangui, e outras cidades. Ali atua o grupo armado UPC, liderada pelo nigeriano Ali Darassa – que se distingue pela violência contra civis. A RCA está em guerra desde 2013. A 24 de janeiro, começaram no Sudão, negociações com 14 grupos armados.

A força da ONU  tentou fazer de Bambari um exemplo sob controlo do Estado. Já a UPC quis demonstrar que tinha capacidade para controlar a cidade.

A missão obriga os militares a constantes combates. A 4ª Força Nacional Destacada já gastou mais munições que todas as três anteriores juntas.

Os paraquedistas portugueses lutam diariamente para manter a cidade e a região a salvo da UPC, grupo que se impõe pelo roubo e extorsão das populações. A missão tem levado a repetidas situações de combate real. Janeiro foi um mês especialmente ativo.

Dia 10 de janeiro, Limpeza do ‘Eixo Eco’
A 10 de janeiro, três pelotões de paraquedistas, apoiados pelos blindados Pandur, avançam  pelo ‘eixo Eco’, uma das principais estradas da zona muçulmana de Bambari. Uma centena de homens da UPC, em quatro locais, reage a tiro e granadas.  Com o apoio de um helicóptero, os paraquedistas conseguem a expulsão dos membros da UPC, ao fim de cinco horas de combate direto com o grupo ex-Seleka (coligação de grupos de matriz muçulmana).

Os drones são um elemento muito importante das missões dos paraquedistas. Do ar, é possível detetar com precisão os movimentos do inimigo e colocar as tropas no terreno para responder com mais eficácia.

Dia 12, Tomada de Bokolobo
A 60 km de Bambari, em Bokolobo, Ali Darassa envia reforços a partir do seu quartel general.  A 12 de janeiro, às 06h00, 26 viaturas da tropa portuguesa arrancam de ‘Aveiro’ para Bokolobo.  Após três emboscadas das forças inimigas, os paraquedistas avançam e tomam a base. O líder do UPC põe-se em fuga. Darassa acaba, depois, por aparecer em Cartum, supostamente ajudado pelos russos.
Dia 17, batalha em Elevage
Às 08h30, os paraquedistas são obrigados a intervir no bairro de Elevage, em Bambari. Na base ‘Aveiro’, a 2,5 quilómetros do local da ação, ouvem-se disparos. Às 09h45, o helicóptero com três portugueses a bordo ‘leva’ dois tiros e aterra de emergência. A operação fica em risco, mas a MINUSCA envia outro heli e os militares lusos vencem mais um combate. Há detidos, armas apreendidas, viaturas destruídas e um ‘general’ de Ali Darassa "eliminado".

Dia 19, limpeza em Maidou
Na noite do dia 18, o tenente Mota mostra imagens aéreas dos objetivos a atacar no dia seguinte. Dá conselhos. É a terceira vez que vão entrar no bairro de Maidou. "Explorar o sucesso", explica o capitão Rocha. A saída de ‘Aveiro’ é às 07h00. Três minutos depois já há tiroteio. Em duas horas os objetivos são conseguidos. Três dezenas de combatentes da UPC fogem para o mato como podem.

As tropas fazem patrulhamento com os jipes blindados Humvee e os Pandur do Exército Português, veículos de oito rodas preparados para terrenos irregulares.

Os militares portugueses têm-se destacado pelo apoio às populações e conquistaram a simpatia dos africanos. A começar pelas crianças.

"Missão atribuída, Missão Cumprida"

"Classifico as operações em Bambari como bem-sucedidas. Por duas razões: ‘missão atribuída, missão cumprida’; e cumprida em segurança, com todos os militares portugueses a voltarem ao campo", afirma o tenente-coronel Fontoura, comandante da força portuguesa.

"A força portuguesa cumpriu os objetivos principais e fez o trabalho com profissionalismo e dedicação. De tal forma que a população reconhece: não houve danos colaterais, civis atingidos. Isso minimiza o impacto da propaganda", diz Balla Keita, senegalês, comandante militar da MINUSCA


Os grupos armados mentem nas redes sociais. Acusam os portugueses de "crimes contra a humanidade". Prometem raptos e ataques dirigidos. Mas, no terreno, sente-se que perderam força. Por causa de Bambari, a UPC declarou uma "ville morte" (greve do comércio) em Bangui. Quase ninguém aderiu.

As Forças Armadas Portuguesas encontram-se na República Centro-Africana, no âmbito da missão MINUSCA, das Nações Unidas, desde o início de 2017.

A atual Força Nacional Destacada é a quarta – cada uma cumpre seis meses de missão – e os seus 180 militares são maioritariamente provenientes do 2.º Batalhão de Infantaria Paraquedista, de Aveiro. Contam ainda com elementos de outras unidades do Exército e de controlados aéreos avançados da Força Aérea Portuguesa. Termina a sua missão a 11 de março, sendo substituída pela 5.ª FND.

Os militares portugueses já sofreram, em dois anos, quatro feridos: um com estilhaços de uma granada, dois atingidos a tiro, e um num acidente durante a manutenção de uma arma.
Texto Sérgio A. Vitorino
Fotografia 
André Germano
Vídeos
André Germano e Exército Português
Webdesign
Edgar Lorga 
Produção multimédia Sandro Martins 
Edição José Carlos Marques