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O mundo parou. É uma má notícia?

A pandemia de coronavírus parou carros, aviões, barcos e pessoas. Todos menos a Terra, que hoje e sempre, continua a girar.

Texto Beatriz Madaleno de Assunção Gráficos e dados Liliana Gonçalves Edição de vídeo Mariana Margarido



A pandemia de coronavírus parou carros, aviões, barcos e pessoas. Todos menos a Terra, que hoje e sempre, continua a girar.

Texto Beatriz Madaleno de Assunção Gráficos e dados Liliana Gonçalves Edição de vídeo Mariana Margarido



Neste Dia da Terra, o planeta está diferente. Nos primeiros meses de 2020,  o  Mundo já emite menos de um milhão de toneladas de CO2 por dia.

Podia ser o resultado dos insistentes apelos à responsabilidade ecológica individual e dos Estados mais poluidores. Podia ser dos alertas sobre o degelo ou as secas. Podia ser do esforço para reduzir o plástico e alterar hábitos de consumo. Podia, mas não foi.

A pandemia causada pelo novo e mortífero coronavírus é a responsável pela diminuição dos poluentes no planeta.  Está a ser bom para o meio-ambiente, mas terá consequências económicas globais imprevisíveis. 

Desertos urbanos

Nota diferença nas ruas? A poluição atmosférica reduziu de forma drástica, proporcional ao abandono das cidades.

Nova Iorque, por exemplo, deixou de ser a cidade que nunca dorme e foi obrigada a parar. Ainda nos Estados Unidos, o trânsito de Los Angeles parou e Hong Kong, na China, foi pelo mesmo caminho.

A análise que está a ser feita desde o início da propagação da Covid-19 mostra também grandes mudanças nas capitais europeias como Madrid, Paris ou Londres, assim como nas cidades fortemente atingidas pela epidemia, como Milão, por exemplo.

Parámos todos, também em Portugal.

Os manuais de história vão reservar um espaço para a Covid-19, que não será esquecida por nenhum de nós que assistimos ao seu impacto na fila da frente, mas não no cinema ou no teatro, porque até isso nos tirou.

A procura global de petróleo baixou pela primeira vez desde 2009 e os valores de dióxido de carbono caíram a pique na região central da China. Seguiram-se os Estados Unidos e depois Itália e Espanha e Portugal, e o resto do Mundo. Se a Terra muda, deixemo-la mudar.

Em Portugal, a adaptação das empresas ao teletrabalho mostrou os benefícios da flexibilidade laboral com a possibilidade de, num ‘click’, reduzir as emissões de dióxido de carbono e - consequentemente - da poluição. As cidades têm agora poucas pessoas. Sem os milhares de carros a que Lisboa estava habituada, há determinados locais onde a redução da poluição por dióxido de carbono ultrapassa os 80%.

As zonas de Belém, da Avenida da Liberdade e do Rossio, por exemplo, estão irreconhecíveis para todos os que um dia por lá passaram. Os transportes públicos, os turistas, os portugueses na correria para o trabalho e o barulho das buzinas dão hoje lugar ao som dos pássaros e até as flores têm espaço para crescer na calçada, outrora pisada. A Avenida da Liberdade registou a menor taxa média de dióxido de azoto do século.










Céus em silêncio

As emissões de C02 diminuíram nos céus dos aviões, nos mares dos navios, nas estradas dos carros. O número de dias onde a qualidade do ar é considerada boa aumentou e deverá manter-se assim enquanto cada um de nós se mantiver onde tem de estar: em casa. 

A poluição provocada pelo tráfego aéreo, que não vemos, mas sentimos, foi reduzida quase a 100%. A pandemia parou aviões e transformou os aeroportos do Mundo em imensos parques de estacionamento dos gigantes dos céus.


Se há uns meses a procura era pelas melhores promoções do mercado para fazer a melhor viagem, para um lugar de sonho, hoje as notícias são sobre os aviões que transportam ventiladores, máscaras e outro material médico para o combate ao coronavírus.

No primeiro dia do Estado de Emergência em Portugal, os aeroportos pararam. Os tapetes rolantes, as lojas fechadas e os voos ficaram suspensos.

Natureza renascida

Um pouco por todo o mundo surgem imagens de animais a invadir o espaço urbano. Na foto, cabras atravessam uma ainda mais calma rua do País de Gales, no Reino Unido.

Sem a presença de turistas, os leões do Parque Nacional Kruger, na África do Sul, têm aproveitado o calor do alcatrão livre de carros para espairecer numa zona que habitualmente é um exclusivo dos humanos. 

Em Israel, os reis da rua são agora os javalis com os animais a invadiram as ruas de Haifa. No Reino Unido, um rebanho de cordeiros foi visto a "brincar" num parque infantil em Llandudno. E as cabras também decidiram ocupar as ruas daquela localidade.

Em Portugal, uma dupla de veados aproveitou as ruas vazias e passeou-se por Odivelas.

Nos tão famosos quanto poluídos canais de Veneza, em Itália, tudo mudou. Os ‘vaporetto’ deixaram de navegar, as gôndolas sem visitantes atracaram e os gigantescos navios de cruzeiro já não chegam com milhares de turistas. O resultado foi quase imediato: os peixes voltaram a nadar naquele que sempre foi e deveria continuar a ser o seu habitat natural. Sem pessoas, as águas estão cristalinas e deixam observar espécies pouco vistas por aquelas paragens.

Regresso ao futuro

Se o efeito ‘io-iô’ é muitas vezes associado a dietas rápidas e de eficácia duvidosa a longo prazo o mesmo pode acontecer com esta folga fugaz que os humanos estão a dar à natureza.
O que irá acontecer quando forem levantados os Estados de Emergência pelo Mundo e tudo voltar à normalidade, sem confinamentos?
Quando tudo isto passar, os carros vão voltar a sair às ruas e vamos voltar às viagens por muito que nada seja como dantes. 

Tomara que o Homem encontre medidas para que as boas práticas sejam adotadas e o planeta possa respirar por regra e não apenas em momentos de exceção.


Texto Beatriz Madaleno de Assunção
Gráficos e dados 
Liliana Gonçalves
Edição de vídeo Mariana Margarido
Imagens Rafael Marchante/Reuters, Andrea Pattaro/Getty e CMTV 

Webdesign Edgar Lorga
Produção multimédia Sandro Martins