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O palco é a casa mas a dança não pára

Confinamento provocado pela pandemia de coronavírus muda rotina dos bailarinos profissionais portugueses. Abrandaram, recolheram à habitação e aprenderam uma nova forma de viver e de dançar.

Texto Marta Quaresma Ferreira

Confinamento provocado pela pandemia de coronavírus muda rotina dos bailarinos profissionais portugueses. Abrandaram, recolheram à habitação e aprenderam uma nova forma de viver e de dançar.

Texto Marta Quaresma Ferreira

Três bailarinos da Companhia Nacional de Bailado (CNB) celebram o Dia Mundial da Dança, que se assinala esta quarta-feira, longe dos palcos e dos aplausos do público.

Integrantes da maior companhia portuguesa de dança, Miguel, Andreia e Leonor pisaram o palco pela última vez há mais de um mês.

Agora partilham diários de quem nasceu livre de movimentos e hoje são obrigados a permanecer em casa numa quarentena forçada que, nem por isso, os impede de continuar a fazer o que mais gostam. Sem parar.

Miguel Ramalho

"O trabalho do bailarino não pode ser interrompido e retomado como outros"

"Eu comemoro a dança todos os dias. É o meu trabalho, a minha paixão e não há um dia para isso, são todos". Miguel Ramalho é um dos principais rostos da Companhia Nacional de Bailado (CNB). Com oito anos de Conservatório Nacional, passagem pela Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo, 12 anos de CNB, um prémio de bailarino do ano e várias criações da sua autoria, o profissional está há mais de mês e meio fechado em casa. Apesar da aparente normalidade com que tenta levar aos dias, há receios no futuro.

Miguel Ramalho tem agarrado vários desafios ao longo da carreira. Este é mais um. "O mais complicado para mim é a prospeção de futuro. O trabalho de um bailarino não é um trabalho que possa ser interrompido e retomado da mesma forma que outros trabalhos serão", constata. "O retomar será gradual e o corpo terá que passar por uma fase de readaptação às plataformas.

Pode demorar tempo e a carreira de um bailarino é curta", desabafa. A perspetiva do regresso aos ensaios e ao palco é, como em todas as áreas, uma incógnita. "Tudo depende do Governo. A trabalhar, estamos sempre. Mas voltar ao nosso ritmo normal não depende dos bailarinos. Estamos todos juntos nisto", afirma Ramalho.

Andreia Mota

"É importante neste momento ser inteligente e trabalhar de forma muito inteligente"

"Para um bailarino, estar de quarentena implica ficar longe dos estúdios e dos palcos e isso é muito difícil de gerir", diz Andreia Mota. Natural de Tomar, chegou a Lisboa aos 13 anos para viver o sonho: ser bailarina profissional. "Nem tudo foi cor-de-rosa", admite.

E tal como nesses tempos, Andreia arranjou agora forma de contornar as dificuldades de quem tem no corpo a sua ferramenta de trabalho. "As nossas cozinhas viraram estúdios, as cadeiras barras, o chão de madeira, linóleo. Quando queremos muito tudo é possível", descreve com pormenor.

A bailarina admite que "está a ser um período muito difícil" porque a educação de um bailarino passa, desde muito cedo, "por uma exigência física e psicológica muito grande". De um dia para o outro "vemo-nos fechados em casa. Embora tentemos de todas as formas possíveis e imaginárias manter todo o nossso dia-a-dia, não é fácil". A bailarina considera "muito importante, neste momento, ser inteligente e trabalhar de forma muito inteligente. Procuro recuperar bases, trabalhar fragilidades e tomar muito tempo para ouvir as necessidades do meu corpo".

Leonor de Jesus

"Como bailarina dependo e vivo do movimento e a casa não é o estúdio"

Com 25 anos e um percurso marcado pelo Conservatório Nacional de Dança e pela CNB, Leonor de Jesus estava habituada a várias horas de estúdio e de trabalho corporal. De repente, a rotina fora de casa desapareceu. "Não poder trabalhar custa. Como bailarina dependo e vivo do movimento e em casa, por muito que faça exercícios e dance, não é a mesma coisa que estar num estúdio a preparar uma nova peça, onde tenho um espaço amplo para me poder expressar à vontade".  E falta, admite, "o melhor de tudo que é feedback do público".

Perante o confinamento provocado pela pandemia, Leonor explica mudou rotinas: "Organizo o meu tempo de maneira a fazer tudo o que quero nomeadamente relacionado com a dança, os meus exercícios e aulas".

A bailarina e os restantes colegas contam com a CNB para se manterem ativos e não perderem o ritmo. Através de uma plataforma, os profissionais têm acesso a aulas online com diferentes professores e bailados antigos para que possam ver e analisar o trabalho já feito.

O regresso

Em pleno Dia Mundial da Dança, os três bailarinos revelaram o que vão fazer quando a quarentena terminar. Voltar ao estúdio de dança, estar com os colegas e preparar os próximos espetáculos.

Por enquanto, Leonor de Jesus considera que "a arte não pode ficar estagnada". "Talvez se criem formas inovadoras de se realizarem espetáculos, embora estejamos separados, pode ser que arranjemos uma maneira de nos unirmos, de nos sentirmos juntos e de podermos fazer o que tanto gostamos e que faz parte de nós, dançar para que toda a gente possa ver", diz a bailarina. Algumas experiências já foram feitas com belos resultados.

Texto Marta Quaresma Ferreira 
Imagens Miguel Ramalho, Andreia Mota, Taja Kosir Popovic
Dança e coreografia Miguel Ramalho
Produção e edição de vídeo Miguel Munhá
Música 
"Deixa-me ser", Paus

Webdesign Edgar Lorga
Produção multimédia Sandro Martins