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Dar a vida por eles

Existem 800 mil cuidadores em Portugal, a maioria mulheres entre os 45 e os 55 anos

Texto Fernanda Cachão
Imagens Mariline Alves

Existem 800 mil cuidadores em Portugal, a maioria mulheres entre os 45 e os 55 anos

Texto Fernanda Cachão
Imagens Mariline Alves

A atividade das pessoas que cuidam em casa, sem serem remuneradas, de idosos, familiares ou amigos com demência ou doenças crónicas e de crianças com patologias graves valerá em Portugal quase 333 milhões de euros por mês, cerca de quatro mil milhões de euros por ano.

Mas em Portugal os cuidadores informais não têm quaisquer direitos. Quando se dedicam à pessoa cuidada abdicam da sua própria vida.

Na maioria das vezes são obrigados a deixar de trabalhar e por isso interrompem a carreira contibutiva e comprometem o direito à reforma.

Dão a vida pelo outro mas o Estado não lhes dá nada ou muito pouco.
"Vivo em função dela e do trabalho. Deixei de ter vida própria"
Isabel Rocha tem 53 anos é divorciada há 19 anos.
Vive sozinha com a mãe que tem artrite reumatoide, demência e está acamada. Sai de sua casa pelas 7h30 para ganhar 530 euros numa cantina escolar. Para poder trabalhar, Isabel tem de pagar 100 euros de apoio domiciliário.
"Quero acreditar que o Estado vai olhar por ela quando eu já não estiver cá"
Rosália Ferreira é uma veterana dos cuidados informais.
Abdicou da sua vida e dos seus sonhos há 38 anos para cuidar da filha que tem uma doença rara. Liliana é uma adulta mas parece uma menina de quatro anos que não anda nem fala. Aos 60 anos, Rosália preocupa-se com a sua própria reforma e com o futuro da filha no dia em que ela estiver sozinha no mundo.
"Perdi-me no tempo. Deixei de comemorar os aniversários"
Vera Carmo teve de fechar a sua loja para cuidar do filho que tem uma doença rara.
Miguel não fala, não anda e vê cada vez pior. É celíaco e intolerante à lactose. Tem problemas cardíacos. O Estado ajuda o Miguel com 200 euros. Cuidar do Miguel custa por mês três mil euros. Vera vive da ajuda dos pais, do apoio de anónimos, do apoio de anónimos e da recolha de tampinhas. Tem 34 anos. É mãe sozinha.
"Eu vivo um dia de cada vez. É melhor assim, se vejo para a frente fico stressada"
Julieta Moreira tem 66 anos e é casada com Joaquim.
O marido de 74 anos tem Alzheimer, bem como os seus seis irmãos e o pai. O casal de reformados vive sozinho e não recebe qualquer apoio do Estado, apesar das juntas médicas terem dado a Joaquim 80 por cento de incapacidade. Em agosto, Julieta planeia comemorar as bodas de ouro, apesar do marido já não a reconhecer.
"Tenho medo que Deus não me dê forças. Se eu adoeço, quem é que trata dela?"
Virgínia Freitas tem 52 anos e cuida da mãe acamada.
Filha única, sem filhos ou companheiro, não tem ajuda de ninguém. Pertence ao contingente de trabalhadores que ficaram desempregados por causa do encerramento de lojas Moviflor. Já não tem subsídio de desemprego e por isso vivem ambas da reforma da mãe de 600 euros e de poupanças. Não tem qualquer apoio do Estado.
O que propõe o Governo
A Assembleia da República discute para legislar sobre os cuidadores informais. O Governo e partidos apresentaram as suas propostas que baixaram à Comissão de Trabalho e Segurança Social. Todos os partidos defendem a criação de um Estatuto do Cuidador Informal, menos o partido no governo.
Criação durante um ano de um projeto piloto para um universo de 15 por cento dos cuidadores e de um seguro de velhice de cerca de 90 euros por mês que deverá ser pago pelos próprios cuidadores.
O que acontece nos outros países?
Espanha
Não existe Estatuto dos Cuidadores Informais mas o Estado apoia cuidados no domicílio, em unidades semi residenciais e cuidados formais em instituições, garantindo o descanso do cuidador, comparticipa serviços e atribui prestações pecuniárias à pessoa cuidada.
Irlanda
Existe um Estatuto do Cuidador Informal e o Estado apoia cuidados no domicilio, em unidades semi residenciais, cuidados formais em instituições garantido o descanso do cuidador e comparticipa serviços mas não atribui prestações pecuniárias ao cuidador.
Reino Unido
Existe Estatuto do Cuidador Informal e o Estado apoia cuidados no domicilio, em unidades semi residenciais, cuidados formais em instituições garantindo o descanso do cuidador, comparticipa serviços e atribui uma prestação semanal de 88 euros ao cuidador.
Webdesign Edgar Lorga
Produção multimédia Sandro Martins
Texto Fernanda Cachão
Fotografias Mariline Alves e Getty Images

Edição Iúri Martins
Textos adaptados da publicação original na revista Domingo do Correio da Manhã