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Amigo de estudante angolano detido em Cuba por morte de professor pede mais apoio

Marcos Vilhena descreve o colega como uma pessoa extrovertida, aberta e amigo de todos, sobretudo do professor.
Lusa 9 de Junho de 2021 às 20:50
Prisão
Prisão FOTO: Getty Images
Marcos Vilhena, colega e amigo do estudante angolano detido em Cuba, acusado de ter assassinado um professor cubano, acredita na inocência de Armindo Leitão Jeremias e pede maior intervenção do Governo de Angola neste caso.

Em declarações à agência Lusa, Marcos Vilhena disse que Armindo Jeremias, com julgamento marcado para sexta-feira, está detido desde 08 de setembro de 2020, dia em que foi encontrado o corpo do professor, morto por asfixia, a 150 metros da casa do acusado.

Na altura ainda em Cuba, Marcos Vilhena, que regressou a Angola há sete meses, disse que um dia antes de o corpo do professor ter sido encontrado, Armindo Jeremias havia solicitado ajuda para comprar pouco mais de 200 dólares (164 euros), pedido aceite como de costume.

Segundo Marcos Vilhena, atualmente gestor de informação em saúde em Angola, o professor, que à data da sua morte era o responsável de logística da Faculdade de Tecnologias da Saúde, era conhecido por ajudar os estudantes neste tipo de transação.

"O professor sempre se disponibilizou a ajudar, esteve sempre connosco e criou um vínculo muito forte connosco e com o Armindo muito mais forte ainda, porque o professor dizia que todos os angolanos eram seus filhos, mas de todos gostava mais do Armindo", afirmou.

Marcos Vilhena descreve o colega como uma pessoa extrovertida, aberta e amigo de todos, sobretudo do professor.

"Era alguém que se o professor precisasse de algum favor estava sempre disposto a ajudar, tinham uma relação muito saudável", frisou.

Os dois colegas e amigos chegaram a Cuba para estudar em 01 de fevereiro de 2015, e por algum tempo partilharam o mesmo espaço por falta de vagas nas residências.

"Fizemos a formação do espanhol - ele em Riron e eu em Corrima -- posteriormente fomos para a faculdade, onde voltámos a nos encontrar, depois de seis meses, na Faculdade de Tecnologias da Saúde", contou.

"Sempre andei com ele, era meu amigo, meu irmão, conheço-o muito bem, vivemos juntos por muito tempo em casas de aluguer e na faculdade foi onde ele conheceu o professor, que tinha deixado a docência muito antes de nós lá chegarmos, ficando o responsável da logística da faculdade", acrescentou.

Marcos Vilhena insiste em realçar o apoio dado sem contrapartidas pelo professor, "buscando formas mais económicas de resolver as coisas", como conseguir comida mais barata e comprar divisas a um câmbio mais baixo.

"Até hoje ninguém sabe onde o professor ia buscar as divisas, nem a sua própria família sabe explicar isso. Ele recebia a moeda nacional de Cuba e ia em busca de um câmbio mais barato. Ele ajudava nas duas coisas, mas geralmente era da moeda nacional para dólar, porque nós já iríamos regressar e estávamos em busca de divisas", frisou.

O dinheiro era recolhido junto dos estudantes e, no fim do dia, acontecia a entrega.

"Não há estudante que diga que acompanhou o professor e o viu a trocar. Ele não trocava na casa de câmbio, era no mercado informal", referiu Marcos Vilhena, salientando que várias vezes se ofereceu para dar boleia ao professor nesses casos, mas este arranjava sempre desculpas para não aceitar.

De acordo com Marcos Vilhena, foi o que aconteceu em 07 de setembro: o professor recebeu o dinheiro da mão do Armindo e ficou de levar as divisas "por volta das sete horas da noite", mas não apareceu.

Naquela noite, prosseguiu Marcos Vilhena, preocupado com o silêncio do professor, Armindo Jeremias foi ligando e chegou mesmo a deslocar-se até à faculdade para saber dele, mas sem sucesso.

No dia em que foi detido, Marcos Vilhena e outros dois colegas estiveram com o acusado, comentaram sobre a morte do professor e o seu semblante era de tristeza.

"Estava em casa tranquilo, sem agitação, comentámos sobre a morte do professor, ele estava triste, vimo-lo às 16:00", disse, acrescentando que por conhecer os dois acredita que "nunca haveria nenhum conflito entre eles, nem discussão por nada".

O estudante foi detido e levado para "100 Y Aldabo", um centro de detenção para investigação criminal, onde, alegadamente, terá sido ouvido sem a presença de um advogado, tendo permanecido naquele local quase quatro meses, até ser transferido para a prisão onde se encontra atualmente.

"O Armindo foi detido nesse mesmo dia, sem que ninguém se tivesse apercebido. Foi capturado sem nenhuma explicação, durante dois dias não sabíamos o que tinha acontecido, fomos para a embaixada e também não sabiam dizer nada", salientou.

Marcos Vilhena disse que a embaixada de Angola em Cuba foi informada pelas autoridades cubanas e após um mês constituiu um advogado local, que considera ter "banalizado totalmente o caso".

"A embaixada de Angola, infelizmente, não sei porquê ficou num canto a ver o processo a passar. Depois de pagar ao advogado descansou e não seguiu o processo", frisou, informando que o início do julgamento está previsto para sexta-feira.

"O advogado é cubano, pertence ao Estado, tem certas limitações pelo modelo deles e o advogado banalizou o caso", sublinhou.

Originário de uma família humilde, órfão de pai e mãe, Armindo Jeremias, com uma filha de 8 anos, antes de ir para Cuba era bolseiro interno do Instituto Nacional de Gestão de Bolsas de Estudo, o mesmo que patrocinou os seus estudos no país caribenho.

A sua família contactou e pediu auxílio ao Ministério das Relações Exteriores (Mirex) de Angola para o caso, tendo sido garantido o apoio. Contudo, da parte das autoridades angolanas receberam apenas uma única ligação.

"Se fosse a família de um ministro, de um governador, de alguém com patente no país, esse caso já estaria resolvido há muito tempo, já teríamos um acompanhamento jurídico, como é um simples cidadão eles banalizaram", lamentou.

"Eu em Cuba sempre reivindiquei os nossos direitos, o pessoal da embaixada conhece-me, eu sempre intervinha quando havia injustiças e tive que ficar calmo, porque a embaixada conversou connosco e disse-nos para não fazermos manifestação, para esperar a diplomacia trabalhar", acrescentou.

A Lusa contactou o Mirex na terça-feira, para saber detalhes sobre o caso e o acompanhamento prestado, sem resposta até ao momento.

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