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Analistas alertam para "tendência perigosíssima" de radicalização islâmica nas eleições da Guiné-Bissau

"A campanha está a mostrar-se destrutiva" disse o analista político guineense João Conduto.
Lusa 22 de Novembro de 2019 às 09:03
Campanha eleitoral na Guiné-Bissau
Campanha eleitoral na Guiné-Bissau FOTO: Paulo Cunha/Lusa
O jornalista e poeta guineense Toni Tcheka alertou esta sexta feira para a tendência "perigosíssima" de "radicalização islâmica e utilização da religião em proveito próprio", que "deve ser encarada como uma ameaça à nação" durante a campanha eleitoral na Guiné-Bissau.

"A campanha está a mostrar-se destrutiva por parte de alguns candidatos que, na falência de ideias e de um projeto para a Guiné-Bissau, entram no populismo barato para agradar a certos setores que os financiam para fazer valer as suas ideias", disse também à Lusa o analista político guineense João Conduto.

"É uma situação nova, com muita coisa para lá das eleições para ser encarada como uma ameaça à nação que se quer construir", reforçou Toni Tcheka (pseudónimo de António Soares Lopes Júnior, antigo diretor da Rádio Nacional da Guiné-Bissau).

Num país empobrecido, já mais de 70% da população afetada pela pobreza forte, "há pessoas que, não se sabe como, nem de onde, não trabalharam ou herdaram heranças, nem ganharam nenhuma lotaria, aparecem com imenso dinheiro para esbanjar nestas eleições, chegando ao limite de comprarem cartões eleitorais de pessoas muito pobres", acusou o jornalista.

Tcheka aponta o dedo a "um grupo de políticos devidamente identificados, que tem estado a utilizar como arma para interesses próprios a religião e a diversidade étnica".

"Há uma deriva enorme, muito por uma certa influência do radicalismo islâmico. Um dos candidatos, pela sua linguagem, pela sua forma de estar e de se apresentar, tem conotações visíveis com o que se passa em certas correntes do radicalismo islâmico que afeta a África Ocidental", acusou.

Também João Conduto sublinha que a "Guiné-Bissau é um país laico e é preocupante que, de entre o conjunto de candidatos que professam o Islão, surja um que se apresenta de uma forma completamente estranha àquela com que os guineenses estão na vida".

"Existe essa deriva, esse aproveitamento momentâneo de políticos que considero medíocres. Quem almeja um futuro harmonioso para a Guiné-Bissau nunca deveria recorrer ao discurso étnico ou religioso", diz Conduto.

A Guiné-Bissau é um país pequeno com mais de trinta etnias. João Conduto diz que "deve ser o país do mundo com a maior concentração de etnias por quilómetro quadrado".

E isto, segundo o analista, resulta numa "boa notícia": "somos um povo muito miscigenado. A miscigenação étnica é, desde logo, uma espécie de vacina contra esse tipo de derivas, que aparecem sempre que há eleições".

Toni Tcheka sublinha também a qualidade do sincretismo religioso na Guiné-Bissau, considerando o "mosaico multifacetado etnolinguístico e religioso guineense" como "uma ferramenta, um bem, que a Guiné-Bissau durante muitos anos capitalizou e utilizou para levar por diante o processo de país mais capaz, ao serviço dos seus filhos", mas diz que há hoje uma realidade diferente.

De acordo com o jornalista, "há um fluxo de gente oriunda do Mali, da Nigéria, da Guiné Conacri e do próprio Senegal que traz essa nova forma de apresentar e interpretar o islão. São conhecidos, chegam a Bissau com uma capacidade financeira única, e acabam por, não só comprar propriedades, como bairros inteiros onde instalam aqueles que lhes vão prestar vassalagem".

Tcheka assinala que "num estado fraco, debilitado, com problemas de tráfico de droga -- ainda que não seja um narco-estado, como muitos dizem --, a Guiné-Bissau é um entreposto de droga que chega de fora e é depois canalizada para a Europa e para os Estados Unidos".

"E hoje está provado através de muitos estudos publicados que há uma relação grande entre o radicalismo islâmico e o narcotráfico, a que podemos acrescentar o tráfico de armas. Acabam por conseguir transformar países debilitados, como a Guiné-Bissau, em enormes estâncias de lavagem de dinheiro".

"A Guiné-Bissau, em termos de Estado, caiu imenso nos últimos anos. Perdeu capacidades que já tinha criado, alguns alicerces, e isto veio ajudar a penetração e a movimentação impune dessa gente, que se relaciona com elementos oportunistas locais que querem ter o poder nas mãos", acabando esta "simbiose" por resultar numa "ameaça muito preocupante".

Mais de 760 mil eleitores escolhem no domingo o próximo Presidente entre 12 candidatos. A campanha eleitoral termina na sexta-feira e no país estão 23 observadores da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), 54 da União Africana, 60 da CEDEAO e 47 dos Estados Unidos da América.

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