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Associações cabo-verdianas pedem mudanças para diminuir número de cães na cidade da Praia

Autarca afirma que a câmara, juntamente com uma associação de animais, tem estado a fazer "aquilo que deve ser feito".
Lusa 24 de Fevereiro de 2020 às 13:57
Cidade da Praia, em Cabo Verde
Cidade da Praia, em Cabo Verde FOTO: Getty Images
Associações de defesa dos animais estimam a existência de cerca de 20 mil cães de rua na cidade da Praia e pedem mudança de atitude e de estratégia à autarquia para diminuir a população canina no maior município cabo-verdiano.

Os cães de rua e nas ruas continuam a ser um problema na cidade da Praia. Deambulam de um lado para o outro em qualquer bairro, fazem barulho, sobretudo à noite, vasculham contentores de lixo, atacam pessoas e enfrentam riscos de doenças, atropelamento e maus tratos.

Maria Fortes é voluntária do Movimento Civil Comunidades Responsáveis (MCCR), que no ano passado organizou uma manifestação na cidade da Praia, após relatos de que cães errantes estava a ser apanhados e abatidos por eletrocussão na lixeira municipal.

O método foi bastante criticado por associações de bem-estar animal locais e internacionais, que mesmo com garantias da autarquia que tal prática iria deixar de acontecer, o movimento ainda tem as suas dúvidas, sustentadas num caso recente, em que alega que os serviços da Câmara Municipal da Praia (CMP) recolheram vários cães perigosos, mas conhece-se o paradeiro de apenas cinco.

"Nós questionamos fortemente esta atitude por parte da câmara municipal. Os animais perigosos têm de ser avaliados por pessoas competentes e a denúncia não pode ser anónima", afirmou Maria Fortes, indicando que, após negociação, cinco dos animais foram resgatados pela Bons Amigos, associação de defesa e proteção dos animais na capital cabo-verdiana.

Em declarações à Lusa, Madueno Cardoso, da Bons Amigos, esclareceu que em janeiro foram recolhidos seis cães agressivos no bairro de Achada de Santo António, o mais populoso da Praia, que depois foram entregues aos donos, mediante um certificado de responsabilidade.

Segundo Maria Fortes, os levantamentos recentes destas organizações apontam para a existência de cerca de 20 mil cães errantes na cidade da Praia e que pelo menos 16 mil deveriam ser castrados, num curto espaço de tempo.

"Gostaríamos de ver da parte da CMP um plano de esterilização eficaz, porque se se trabalha somente numa zona, aumenta a população canina em outras zonas. A reprodução é grande e contínua", prosseguiu, pedindo igualmente educação e incentivo à posse responsável dos animais.

No ano passado, o MCCR criou uma Aliança Nacional para Gestão Ética da População Canina e Felina, que já integra quatro municípios, tal como a Ordem dos Médicos Veterinários de Cabo Verde, tendo muitos outros manifestado interesse em aderir.

"No município da Praia ainda não há uma visão integrada, holística sobre esta problemática e a sua gestão. Com campanhas de esterilização não se conseguirá resolver esse problema", manifestou à Lusa a responsável do movimento, fundado em 2015.

Madueno Cardoso reconheceu que a Câmara da Praia tem sido um parceiro no controlo da população canina, mas pediu uma "mudança de estratégia" do poder local, que passava por investir mais meios e criar um projeto-piloto que abrangesse todo o concelho.

Só em 2020, a Bons Amigos estima castrar mais de três mil cães, mas depara-se com falta de meios de transporte e espaços em todas as zonas para trabalhar, tendo estado a recorrer a contentores.

Com todas as condições criadas, Madueno Cardoso não tem dúvida de que poderiam ser castrados o dobro dos animais, pelo que pediu à autarquia para assumir as suas responsabilidades para resolver este problema.

Instado a pronunciar-se sobre a gestão canina na cidade da Praia, o vereador do Ambiente, António Lopes da Silva, disse à Lusa que "a câmara não é uma associação de defesa dos animais", e que "foi eleita para gerir uma cidade", com problemas complexos, que afetam todos os habitantes, que são cerca de 200 mil.

O autarca disse que a câmara, juntamente com a Bons Amigos, tem estado a fazer "aquilo que deve ser feito", nomeadamente campanhas de desparasitação e castração nos vários bairros da cidade.

"Evidentemente que isso não pode satisfazer todo o mundo. Há pessoas que acham que os cães devem estar na rua de qualquer maneira. Nós também não somos adeptos de abater cães, mas quando nós temos quantidade que ultrapassa aquele equilíbrio necessário, infelizmente não temos outra coisa a fazer", explicou, pedindo também mudança de atitude por parte dos munícipes.

Questionado se a Câmara continua a eletrocutar cães na lixeira municipal, António Lopes da Silva respondeu que são usados "vários métodos", que não especificou, referindo que, por exemplo, Portugal gasta 50 a 60 euros para abater um cão com injeção.

"Acha que temos dinheiro suficiente para abater os cães desta forma? Num país em que um idoso recebe essa quantia para viver durante um mês", questionou o vereador, sugerindo uma castração em massa, desde que as associações tenham capacidade para isso.

Para o vereador, o número de cães nas ruas da Praia "já diminuiu muito", os castrados têm um melhor comportamento, o que significa que os objetivos estão a ser alcançados.

"Mas não pode ser de um dia para outro, tem de ser uma luta constante. E aí eu chamo atenção, fundamentalmente, às associações de defesa dos animais, que façam também trabalho connosco junto da população para que haja uma atitude mais responsável", pediu o vereador.

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