Barra Cofina

Correio da Manhã

Mundo
9

Bispo critica "secretismo e silêncio" sobre violência armada no norte de Moçambique

Luiz Fernando Lisboa pediu uma investigação devido a atos de violência.
Lusa 19 de Julho de 2019 às 17:36
Luiz Fernando Lisboa
Luiz Fernando Lisboa FOTO: Direitos Reservados/ Facebook
O bispo da diocese de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, norte de Moçambique, criticou o "secretismo e silêncio" das autoridades em torno dos ataques armados na zona por grupos desconhecidos e pediu uma investigação à violência.

"O que pretendem as autoridades civis e militares criando este clima de secretismo e silêncio? Qual é o segredo que não querem revelar nem que seja revelado", questionou o bispo católico, Luiz Fernando Lisboa, numa carta aberta que divulgou esta sexta-feira.

A província de Cabo Delgado, norte do país, palco de uma intensa atividade de multinacionais petrolíferas que se preparam para extrair gás natural, tem sido alvo de ataques de homens armados desconhecidos desde outubro de 2017 e que já provocaram mais de 200 mortos.

Luiz Fernando Lisboa pede às autoridades que investiguem a violência, "por honra à verdade e para provar a inocência ou culpa das pessoas supostamente implicadas".

Na carta, o bispo católico apelida os ataques de "ciclones" a que se deve "pôr um ponto final".

Luiz Fernando Lisboa, de nacionalidade brasileira, considera que é importante saber quem são os "fantasmas" que se escondem detrás do "pedaço do lenço" e que atacam as comunidades do norte do país.

O documento, de três páginas, faz referência ao ambiente de "silêncio" e "intimidação" em torno de informações para a comunidade e imprensa sobre os ataques armados.

O representante da Igreja Católica questiona a presença militar nas áreas afetadas pela violência, que não consegue impedir que ataques continuem a acontecer nas imediações.

"Poucas vezes, as brigadas das forças armadas puderam evitar os ataques, pois quando eles acontecem, elas não estão e várias vezes chegam tarde ao local", diz, no documento.

Segundo o bispo, as comunidades aguentam os "insurgentes" e também têm de suportar os abusos das forças armadas, sem esquecer que alguns rebeldes são identificados como ex-militares e ex-polícias.

"Estão realmente preparados, conhecem as matas de Cabo Delgado, são em número suficiente", refere, acrescentado que as comunidades precisam de sentir que há vontade de parar os ataques.

O bispo relata que esteve em visita pastoral às zonas de Palma e o que viu e ouviu é de "entristecer": deslocados a viver de favores, pessoas de luto, sem perspetiva futura por falta de terra para cultivo, bem como crianças a crescer num ambiente de violência e sem escola.

Aquele responsável católico questiona se os ataques estão ligados ao tráfico de órgãos, branqueamento de capitais, comércio de pedras preciosas, dívidas ocultas, pobreza extrema na região ou concessão mineira.

"Enquanto o povo estiver instrumentalizado por poderes ocultos que pretendem impor os próprios interesses, não haverá paz, reconciliação e nem esperança", lê-se.

Moçambique vai receber o Papa Francisco em setembro, e o bispo diz esperar oferecer "os frutos de uma política ao serviço da paz".
Luiz Fernando Lisboa Pemba Moçambique Cabo Delgado Palma crime lei e justiça política
Ver comentários