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"Os Zulus dizem que não querem estrangeiros": Loja portuguesa em Joanesburgo destruída em ataque

Ataque causou danos materiais estimados em cinco milhões de rands, mais de 300 mil euros.
9 de Setembro de 2019 às 19:29
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Violência em Joanesburgo, África do Sul
Uma loja de peças de automóveis de um lusodescedente, em Joanesburgo, foi saqueada e destruída no domingo à noite, num ataque que causou danos materiais estimados em cinco milhões de rands (mais de 300 mil euros), disse à Lusa o proprietário.

Em declarações à Lusa, na tarde de esta segunda-feira, à frente do que resta do edifício que ainda estava a arder, na Jules Street, centro-leste da cidade, Filipe da Serra disse que o incidente ocorreu cerca das 20h00 (19h00 de Lisboa) de domingo.

"Telefonaram-me ontem à noite cerca das 19h45 [18h45 de Lisboa] a alertar que estavam a roubar o negócio. Quando cheguei aqui já estava vazio e atearam fogo ao prédio, queimaram tudo agora. Perdi tudo", disse à Lusa o comerciante lusodescendente, de lágrimas nos olhos.

Questionado se o ataque está relacionado com a manifestação de Zulus, este domingo nesta avenida, Filipe da Serra respondeu: "Os Zulus dizem que não querem estrangeiros mas eu não sou estrangeiro, sou sul-africano, nasci neste país".

"A minha foi a única loja atacada [ontem] aqui em redor", salientou.

Segundo Filipe da Serra, os bombeiros, cujas instalações se localizam a cerca de 50 metros do estabelecimento, não acorreram ao incêndio.

"Estavam uns 10 carros da polícia aqui na rua e disse-lhes para chamarem os bombeiros e responderam que os bombeiros não vinham para aqui porque tinham medo", adiantou.

Segundo Filipe da Serra, a polícia terá disparado balas de borracha contra os perpetradores mas não fez detenções.

O comerciante, instalado há trinta anos na Jules Street, comprou o prédio em 2014, onde abriu a loja Phil's Auto Spares.

A loja dista cerca de 20 metros do Andy's Supermarket, no mesmo lado da avenida, o negócio do irmão Roberto Carlos da Serra, que foi alvo também de saques na passada segunda-feira.

"Nunca tive problemas com a comunidade imigrante africana. Tenho feito negócio com eles, (...) já estou aqui há trinta anos e é a primeira vez que acontece esta catástrofe", salientou.

Na opinião de Filipe da Serra, a xenofobia acentuou-se após a nomeação do presidente do Congresso Nacional Africano (ANC, sigla em inglês), Cyril Ramaphosa, para chefe de Estado.

Ramaphosa substituiu Jacob Zuma (de etnia Zulu), que foi afastado da liderança do partido e do país por alegada corrupção.

A cerca de 50 metros da Jules Street situam-se três "hostels" [albergues sociais] de Zulus.

Filipe da Serra, que disse já ter sido assaltado "umas trinta vezes" em outros negócios, é o décimo comerciante português a ser alvo de saques, destruição e alegada violência xenófoba em Joanesburgo.

Segundo dados recolhidos pela Lusa, os prejuízos materiais ascendem agora a 18,1 milhões de rands (cerca de 1,1 milhões de euros), nos negócios afetados em Malvern, Benrose, Jeppestown e Germiston South, leste de Joanesburgo.

Desde 01 de setembro, pelo menos 12 pessoas morreram, entre as quais um estrangeiro cuja nacionalidade não foi revelada, anunciou hoje o ministro da polícia Bheki Cele.

Segundo o ministro, a polícia deteve 630 pessoas até ao momento.
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