ALARME NA CIRURGIA PARA OBESIDADE MÓRBIDA

Soou o alarme em Espanha sobre o tratamento cirúrgico da obesidade. Num espaço de dois meses morreram quatro pessoas submetidas a operações para redução do estômago. O Ministério da Saúde já ordenou uma investigação para apurar se as técnicas utilizadas são, de facto, seguras.

13 de fevereiro de 2004 às 00:00
ALARME NA CIRURGIA PARA OBESIDADE MÓRBIDA
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Ana B.V. morreu em Dezembro passado no Hospital Infanta de Huelva devido a complicações decorrentes de uma operação de redução de estômago. No mês seguinte, faleceram mais dois doentes, António Sánchez Chorro e José Ramón Parrado, este último alcaide de Casariche (Sevilha), submetidos a cirurgias idênticas em hospitais diferentes. Na quarta- -feira este tratamento cirúrgico fez mais uma vítima: Raúl Gallardo Troyano, de 31 anos e 200 quilos, que tinha até casamento marcado, desenvolveu complicações graves às quais não resistiu.

Perante estes casos sucessivos e sendo a obesidade uma das patologias prevalentes em Espanha, a ministra da Saúde do país vizinho, Ana Pastor, encarregou a Agência de Avaliação de Tecnologias de Saúde de investigar a eficácia e a segurança do tratamento cirúrgico da obesidade mórbida, não estando, contudo, suspensas este tipo de intervenções.

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PROCESSOS JUDICIAIS

Inconformadas, as famílias destas quatro vítimas acusam os hospitais de negligência e alegam que os médicos não alertam os doentes sobre os riscos deste tipo de cirurgia. Todos os quatro casos vão ao tribunbal, já que os respectivos familiares anunciaram que vão processar os hospitais . Na sequência disso, os estabelecimentos hospitalares visados ordenaram investigações internas para apurar se houve, ou não, negligência médica.

ÚLTIMO RECURSO

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Em Espanha, segundo Cândido Martinez, cirurgião e presidente da Sociedade de Cirurgia contra a Obesidade, realizaram-se mais de três mil operações. A taxa de mortalidade está entre 1 e 2 por cento e perto de 10 por cento desenvolvem complicações graves.

''Em caso algum se trata de uma operação de estética'', faz questão de frisar Martinez, para quem esta cirurgia deve ser encarada apenas como último recurso, já que acarreta riscos. "Há que ter em conta que os doentes que se submetem a este tipo de operações padecem de problemas cardiovasculares, respiratórios, apneia do sono, hipertensão ou diabetes, pelo que não se pode descartar a possibilidade de ocorrerem complicações depois da intervenção'', alerta o cirurgião espanhol.

A maioria dos especialistas que faz este tipo de intervenção considera, contudo, que ela não acarreta mais riscos do que qualquer outra grande cirurgia.

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Refira-se que há várias técnicas cirúrgicas para o tratamento da obesidade mórbida e a escolha é feita pelo cirurgião depois de analisar o doente (ver caixas e gráfico). Refira-se que todos os doentes recebem acompanhamento psicológico nomeadamente para se prepararem para a cirurgia.

MARGARIDA MARTINS (EX-PRESIDENTE DA ABRAÇO): ''CORRIA RISCO DE DEIXAR DE ANDAR''

''Eu não fiz uma redução de estômago, pus uma bomba gástrica. Não fui alertada para eventuais riscos, mas estava ciente de que como qualquer outra intervenção, esta também acarreta riscos. Mas há toda uma preparação que se faz antes da cirurgia, como por exemplo comer líquidos durante um mês, e creio que se as pessoas seguirem as indicações médicas, não há mais riscos do que em qualquer outra cirurgia. Fiz esta preparação durante ano e meio e perdi 20 quilos antes da cirurgia e 53 quilos depois, isto é, 73 quilos no total. Não tive qualquer receio, até porque eu corria o risco de deixar de andar se não fosse operada. Estive hospitalizada três dias, tive os cuidados pós-operatórios normais e agora estou perfeitamente bem.

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PAULO CHINA (EMPRESÁRIO): ''SINTO-ME MAIS MOTIVADO''

Fui operado há 15 dias pelo Dr. António Sérgio para a colocação da banda gástrica. Estou a ser acompanhado e sinto-me bem. Tinha 60 quilos a mais e já perdi 10. Ainda não como tudo porque nesta primeira fase é preciso fazer uma dieta. Mas agora também vou ter mais cuidado em relação aos alimentos que como e a frequência com que como. Agora que perdi peso, sinto-me mais motivado. Não fiz esta operação por uma questão de estética, fi-la por razões de saúde. Tinha apneia do sono, artroses nos joelhos, problemas cardíacos e também psicológicos. No que respeita aos riscos, não fui alertado especificamente para es- ta cirurgia, mas sei que qualquer intervenção cirúrgica acarreta riscos.

MORTALIDADE É MUITO BAIXA

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Falando ao CM, o dr. Jorge Limão, o médico que operou Margarida Martins, afirmou que a taxa de mortalidade por este tipo de intervenções é muito baixo em Portugal. Pese embora não tenha conhecimento de números exactos, aquele conhecido cirurgião estima que a taxa de mortalidade deve andar abaixo de 1%. "Falando na minha experiência, posso dizer-lhe que tenho 400 doentes operados e a taxa de mortalidade é zero'', referiu, adiantando que que o factor de risco não deve ser superior a 1%, sendo idêntico a qualquer outro tipo de cirurgia.

Segundo Jorge Limão, há, 'grosso modo' quatro grupos de cirurgias para tratamento da obesidade mórbida: as restritivas, nas quais se inclui a banda gástrica, as mistas, que são restritivas e de má absorção, nas quais se inclui o 'bypass', e o grupo das cirurgias de má absorção predominante, no qual se incluem os 'bypass' intestinais. Há ainda um grupo à parte de cirurgia de 'pacemaker' gástrico. A escolha é feita depois de efectuado um estudo do doente.

"A DERROTA DO MÉDICO"

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Para o Dr. Pedro Eurico Lisboa, os gordos deviam aprender a comer. ''Nesta cirurgia corta-se um bocadinho de estômago para que as pessoas, queiram ou não, não consigam comer muito. Ela é para os 'buchas' que são incapazes de dominar a fome e que devoram comida até ganharem 150/180 quilos . Esta operação significa a derrota do médico, porque quando os obesos atingem os 140 quilos é muito improvável que aprendem a comer'' afirma aquele prestigiado endocrinologista português, para quem a cirurgia só se justifica quando existe obesidade mórbida (140 quilos), a que prefere chamar de letal, já que há perigo de morte. ''Quando um obeso não consegue controlar a fome é porque sofre de uma doença mental e, nesse caso, é precido operar. Até 120/130 quilos ninguém precisa de operação. Ela só se justifica quando ultrapassa os 130/140 quilos. Eurico Lisboa considera que em Portugal se abusa destas cirurgias, que, na sua opinião, não acarretam muitos riscos.

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