"As linhas de falha do mundo estão a alargar-se": O 'adeus' incisivo de Guterres no último discurso como líder da ONU
Ao leme da organização desde janeiro de 2017, o líder português revelou que conseguiu alcançar a paridade de género na estrutura interna e despede-se com um aviso claro: o planeta está em perigo.
Subindo pela última vez à tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas como secretário-geral, António Guterres inaugurou esta terça-feira a 81.ª sessão com uma radiografia implacável do planeta. Perante líderes mundiais, o responsável avisou que as linhas de fratura globais deixaram de ser simples fendas para se transformarem em verdadeiros "canyons", impulsionadas por uma perigosa erosão da confiança e por uma profunda crise de governação internacional.
Numa intervenção incisiva e sem meias-palavras, Guterres sublinhou que a última década foi marcada por guerras devastadoras onde a fome foi usada como arma, trabalhadores humanitários foram mortos, os civis foram alvos deliberados e o direito internacional foi posto de lado. Para o secretário-geral, conflitos, alterações climáticas e inteligência artificial não são frentes isoladas, mas sim "capítulos da mesma história: a história do poder, de quem o tem e de quem é negado".
Sem nunca mencionar diretamente Donald Trump, Guterres deixou um aviso claro às superpotências: o seu poder tem limites e já não é assim tão "super", alertando que a força militar, económica ou tecnológica isolada não consegue garantir a segurança nem evitar a divisão do mundo em dois blocos rivais.
Para o secretário-geral, o poder global está a transformar-se em três frentes cruciais: A ascensão de novos centros de influência entre Estados; a transição acelerada de controlo para corporações privadas e indivíduos; e a passagem de influência dos humanos para as máquinas, incluindo agentes de IA fora de controlo e armas autónomas letais.
Defendendo que a verdadeira paz exige "a presença de contenção" e que o poder deve ser regulado pela lei, Guterres passou em revista as grandes crises globais:
Escala de mortes "sem precedentes" e exigência que o mundo não ignore Gaza
Apelando para que a comunidade internacional não ignore a situação devastadora nos territórios palestinianos, Guterres classificou a ofensiva militar que se seguiu aos ataques do Hamas a 7 de outubro de 2023 como "um ataque aos palestinianos em Gaza com uma escala de mortes e destruição sem paralelo" em todo o seu mandato. Na Cisjordânia, condenou a violência, os colonatos e o deslocamento de populações, alertando que a solução de dois Estados está a "desaparecer diante dos nossos próprios olhos" e a levantar o espetro de limpeza étnica.
Condenação da guerra "brutal" na Ucrânia
Criticando duramente a invasão russa em grande escala, Guterres apontou que a Ucrânia foi submetida a uma guerra brutal em flagrante violação da Carta da ONU. Adicionalmente, alertou que os ataques recentes contra sistemas de energia, água e transportes em zonas da própria Rússia ameaçam desestabilizar ainda mais as cadeias globais de abastecimento alimentar e energético.
Inteligência Artificial comparada a armas nucleares
Guterres comparou a ameaça emergente da inteligência artificial às armas nucleares, apelando a um novo pacto e ao mesmo nível de urgência da Guerra Fria para regular a tecnologia. Sublinhou a necessidade de gerir de forma coordenada os riscos de agentes de IA e armamento autónomo que já passaram da ficção científica para a realidade militar.
Crise climática e a crítica feroz às grandes petrolíferas
O secretário-geral alertou que a crise climática representa um profundo desequilíbrio onde uma geração consome o futuro da seguinte, com as pessoas comuns a pagarem muito mais por energia, alimentos e seguros devido a fenómenos extremos como o El Niño.
Guterres acusou as maiores petrolíferas ocidentais de tratarem a atmosfera como um esgoto e de lucrarem fortemente - quinhentos mil milhões de dólares (cerca de 430 mil milhões de euros) desde a invasão da Ucrânia -, contrastando com os escassos 34 mil milhões de dólares para financiamento de adaptação climática nos países em desenvolvimento.
Retrocesso nos direitos das mulheres
O líder da ONU denunciou que os direitos das mulheres continuam a sofrer um retrocesso global, com corpos transformados em campos de batalha e liberdades usadas como moeda de troca, classificando esta realidade como um "ultraje". Frisou, contudo, que "a paz é muito mais duradoura quando as mulheres estão sentadas à mesa".
Urgência da representação de África no Conselho de Segurança
Guterres apontou a ausência de assentos permanentes para países africanos no Conselho de Segurança como um reflexo desatualizado da geopolítica pós-Segunda Guerra Mundial, classificando a situação como "injusto e indefensável".
Direitos humanos, desenvolvimento e um marco histórico na ONU
Guterres reforçou que não há paz sem desenvolvimento, nem desenvolvimento sem paz, e que nenhum dos dois sobrevive sem direitos humanos.
A terminar, Guterres anunciou um marco histórico e motivo de esperança: a ONU alcançou pela primeira vez a paridade de género em toda a sua liderança sénior, sedes e pessoal profissional, provando que "a igualdade não é um sonho, é uma decisão" que governos, parlamentos e empresas podem replicar. E concluiu: "Esteja onde estiver, manterei a convicção de que a paz é possível".
António Guterres assumiu a liderança da ONU em janeiro de 2017, tendo sido reconduzido para um segundo mandato de cinco anos, que termina no final deste ano. Pela primeira vez em 10 anos, a organização prepara-se para nomear o novo Secretário-Geral. Sete candidatos - quatro homens e três mulheres - estão oficialmente na corrida para o que é descrito como um dos cargos mais difíceis do mundo, num momento marcado por tensões geopolíticas, conflitos em curso e uma pressão crescente sobre o multilateralismo.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt