As loucuras de King Jong-il

Tem pouco mais de metro e meio e sente-se mal com isso. Disfarça o facto com um penteado estilo ‘permanente arrepiado’ que lhe confere uns centímetros extra e para consolidar calça sapatos de tacão alto. Provavelmente a culpa da sua crueldade cabe à Natureza, por tê-lo condenado a tão diminuta silhueta. A ‘desforra’ absurda dessa injustiça já custou a vida a pelo menos dez por cento da população da Coreia do Norte.

21 de outubro de 2006 às 00:00
As loucuras de King Jong-il Foto: d.r.
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Segundo dados da espionagem do vizinho do Sul, em apenas quatro anos, no final da década de 90, morreram de fome quase três milhões de súbditos do ‘Querido Líder’. O recorde foi apenas superado por Mao Tsé Tung e Josef Estaline. Mas Kim Jong-il tem uma vantagem: está vivo e disposto a fazer melhor. Para já, aplica o dinheiro dos alimentos do povo em armas. Fez o primeiro teste nuclear dia 9, e o que pretende agora só ele sabe.

Num concurso para eleger o mais cruel e excêntrico dos líderes vivos Kim Jong-il seria um sério candidato ao título. Em comparação Hugo Chávez é um brincalhão inocente e até o ‘reformado’ Saddam Hussein ou o ‘regenerado’ Muammar Khadafi empalidecem junto dele.

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Vamos por partes. Para pergaminhos de crueldade basta acrescentar à fome que tem semeado na Coreia o facto de ter mais de 200 mil presos em campos de concentração e de considerar dissidente qualquer cidadão que não cumpra normas como a de trazer ao peito um emblema com a sua efígie ou a do pai, Kim il Sung.

Quanto às excentricidades, muitas delas tingidas de crueldade, a lista é longa. Uma das mais curiosas é a da perseguição que move aos trigémeos. E porquê? Porque acredita que um lhe sucederá no ‘trono’. Para evitar tal aberração Jong-il manda arrancar os trigémeos aos pais e encerra-os num orfanato.

Outro aspecto curioso é o prazer pela boa mesa: pratos refinados regados com quantidades generosas de álcool marcam o seu dia-a-dia, parecendo até que a fome do povo é para ele aperitivo. Tem um fraquinho por conhaque, especialmente Hennessy, gastando por ano uma média de meio milhão de euros em garrafas desse precioso líquido.

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O seu antigo cozinheiro pessoal, o japonês Kenji Fujimoto, conta que o ‘Querido Líder’ (epíteto conquistado por Jong-il em 1987) o enviava a comprar mangas à Tailândia, peixe fresco ao Japão e caviar a Teerão. O gosto pelos excessos gastronómicos levou alguém a considerá-lo ‘o único gordo da Coreia’.

Mas o volumoso líder tem outros apetites nos quais é igualmente desmesurado: os do sexo. Na sua imensa colecção de cinema (22 mil filmes) abundam os heróis de acção (Rambo e James Bond são dois dos favoritos), os desenhos animados (o preferido é Daffy Duck) e os filmes pornográficos, pelos quais nutre predilecção especial. Este é, no entanto, um condimento inocente numa vida sexual ‘pantagruélica’. Além das jovens que rouba aos pais para uma noite de excessos, tem ao seu dispor a ‘Brigada do Prazer’, composta por beldades asiáticas e europeias que, como os filmes, vai coleccionando. Não se sabe quantas mulheres teve, mas tem pelo menos quatro filhos legítimos de dois casamentos. Bastardos há pelo menos 20.

Como todo o bom ditador messiânico, Kim Jong-il inventou para si uma mitologia recheada de feitos e milagres. Segundo a biografia oficial, uma andorinha anunciou o seu nascimento enquanto um arco--íris duplo coroava o monte Paektu e uma nova estrela surgia no firmamento. Agora diz-se capaz de recitar, com todas as vírgulas, livros de mais de 600 páginas e garante que a primeira vez que jogou golfe superou as marcas de Tiger Woods.

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Facto e ficção misturam-se no que toca à Coreia do Norte e ao seu líder. Nem outra coisa convém a um déspota que preserva o poder graças à aura de semideus alimentada com eficácia e zelo pela propaganda, enquanto mantém na miséria moral e física mais de 20 milhões de almas.

O HERDEIRO DO PODER HEGEMÓNICO

Kim Jong-il nasceu na Sibéria (1941), mas ajustou a data para 1942 para coincidir com os 30 anos do pai, número considerado auspicioso. A Sibéria fazia dele um estrangeiro pelo que as biografias oficiais o dão como nascido no Monte Paektu, mais alta montanha da Coreia. Em 1994, após a morte do pai, Kim il Sung, um ditador cruel, sucedeu-lhe no poder e nomeou já herdeiro o filho Kim Jong-Chui. Esta forma de sucessão dinástica é única em regimes comunistas.

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OUTROS LÍDERES ACTUAIS POUCO ORTODOXOS

HUGO CHÁVEZ

O presidente da Venezuela tem como passatempo atacar Bush. Na ONU afirmou, a respeito dele: “O diabo esteve aqui, ainda cheira a enxofre.”

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SADDAM HUSSEIN

O regime do ex-presidente do Iraque foi marcado por luxo e crueldade. Fez palácios com torneiras de ouro e matou milhares de curdos e xiitas.

MUAMMAR KHADAFI

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O líder líbio é uma sombra do que foi. Nos tempos excêntricos provocava os EUA e financiou os autores do massacre de Munique, em 1972.

MAHMOUD AHMADINEJAD

O presidente do Irão afirma que Israel devia ser transferido para a Europa. Quando em 2005 discursou na ONU diz que uma luz o envolveu e hipnotizou os ouvintes.

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