Berlusconi repreendido por influenciar a mãe
Os italianos foram ontem às urnas no primeiro dia de votação das eleições gerais que poderão ditar o fim da era Berlusconi. Ao seu melhor estilo, o primeiro-ministro cessante protagonizou o único incidente deste dia eleitoral, ao aconselhar a mãe a optar pelo seu partido, o Forza Italia!, em plena mesa de voto, o que lhe custou uma imediata reprimenda.
Ontem, os dois principais candidatos à vitória depositaram cedo os respectivos boletins de voto nas urnas. Romano Prodi, líder da coligação de centro-esquerda, votou na sua cidade natal, Bolonha, no Norte do país. “Dormi muito bem, está um belo dia de sol e espero que tudo acabe da melhor maneira possível”, declarou Prodi.
Por seu lado, Berlusconi surgiu numa secção de voto de Milão acompanhando a mãe, Rosa, de 95 anos, e, perante as câmaras de televisão, aconselhou: “Ponha uma cruz na Forza Italia!”. Como seria de esperar, foi imediatamente repreendido por um elemento da mesa de voto. “Nem sequer posso ajudar a minha mãe? Vocês são mesmo da Itália que não ama”, replicou Berlusconi, numa alusão ao seu discurso de encerramento da campanha, no qual defendeu “uma Itália que saiba amar”. Já no exterior da assembleia de voto, o chefe do governo italiano teve ainda outra tirada digna do seu ‘repertório’: “Agora vou com a minha mãe almoçar ao restaurante, como dois jovens amantes”.
Relativamente ao resultado final é ainda cedo para fazer quaisquer prognósticos, até porque a votação prossegue hoje até às 15h00 locais (14h00 em Lisboa). Prodi, recorde--se, foi inicialmente favorecido pelas sondagens. No entanto, durante cerca de duas semanas não foram divulgados novos dados sobre as intenções de voto dos italianos. Berlusconi optou então por protagonizar uma campanha bastante aguerrida, o que poderá ter jogado em seu favor, ou, pelo contrário, prejudicá-lo decisivamente. No entanto, é importante não esquecer que o passado já mostrou que Berlusconi é capaz de verdadeiros ‘milagres’ eleitorais.
A jornada eleitoral de ontem ficou ainda marcada por outro incidente, este de natureza criminosa, quando uma secção de voto na localidade de Vittorio Veneto (nordeste) foi atacada com três ‘cocktails molotov’ e um engenho explosivo de fabrico artesanal que não chegou a explodir. Não houve danos, e a votação decorreu dentro da normalidade.
CASA DAS LIBERDADES (La Casa Delle Liberta)
FORÇA ITÁLIA
Partido dirigido pelo actual primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
ALIANÇA NACIONAL
Partido conservador dirigido pelo ministro dos Negócios Estrageiros e Gianfranco Fini.
UNIÃO DEMOCRÁTICA CRISTÃ
Partido católico moderado, dirigido por Lorenzo Cesa.
OUTROS PARTIDOS
LIGA DO NORTE - MOVIMENTO PARA A AUTONOMIA
Coligação formada pelo partido de extrema-direita 'Liga do Norte' e pelo partido centrista 'Movimento para a autonomia'.
NOVA DC – NPSI
Coligação formada pelo partido centrista 'Democracia cristã para as autonomias', um pequeno partido socialista 'Novo PSI'.
ALTERNATIVA SOCIAL
Coligação de extrema-direita e de movimentos fascistas, liderado por Alessandra Mussolini, neta do antigo ditador.
PARTIDO CHAMA TRICOLOR
PARTIDO LIBERAL REFORMADOR
MOVIMENTO NÃO AO EURO
OLIVEIRA
Coligação de três partidos, 'Democratas de Esquerda' de Piero Fassini, 'A Margarida' de Francesco Rutelli e o 'MRE' de Luciana Sbarbati.
PARTIDO DA REFUNDAÇÃO COMUNISTA
Partido comunista refundado, liderado por Fausto Bertinotti.
FEDERAÇÃO DOS VERDES
Partido ecologista dirigido por Alfonso Pecorar Scanio.
OUTROS PARTIDOS
MOVIMENTO ROSA NO PUNHO
Movimento liberal e libertário composto pelos 'Socialistas Democratas Italianos' de Enrico Boselli e pelos 'Radicais Italianos' de Danielle Capezzone.
PARTIDO DOS COMUNISTAS ITALIANOS
Partido Euro-Comunista liderado pr Oliviero Diliberto, faz coligação como os 'Verdes' e com a 'Lista de Consumidores'
ITÁLIA DOS VALORES
Movimento moderado centro-esquerda, drigido pelo ex-magistrado Antonio Di Pietro.
POPULAR UDEUR
Pequeno partido centrista de Clemente Mastella.
OS SOCIALISTAS
PARTIDO DOS PENSIONISTAS
"GRANDE CONFUSÃO" (P. Cordeiro, Pontifício Colégio Português)
“Campanha foi uma grande confusão. É um registo e um estilo completamente diferente de Portugal, onde um primeiro-ministro como Berlusconi há muito que já estaria fora do governo. As sondagens apontavam para um empate técnico, embora se sinta uma vontade de mudar, uma vontade de respirar, uma vontade de recuperar o orgulho italiano, de afirmação do país no contexto europeu e internacional. O interessante neste país, e que o torna único, é que, com ou sem governo, desta ou daquela cor, com este ou aquele primeiro-ministro, a vida continua, calma e serenamente.”
"TENDÊNCIA DE MUDANÇA" (P. Vilarinho, Missionário da Consolata)
“Já assisti a várias campanhas eleitorais em Itália e nunca vi nenhuma tão intensa. Nunca, até hoje, se ouviu nada de semelhante entre adversários políticos. Sente-se que há uma grande tendência para a mudança. Nota-se que as pessoas estão um pouco fartas deste primeiro-ministro e a ideia que passa é a da necessidade de mudar de governo. A direita tem gente capaz, como Gianfranco Fini e Fernandino Casisi. O problema é o estilo Berlusconi. O mesmo não se passa no centro-esquerda, que é muito mais unido.”
AFLUÊNCIA DE 67,6 POR CENTO
Um total de 67,6 por cento dos cerca de 50 milhões de eleitores inscritos votaram ontem, no primeiro dia das eleições gerais italianas. As 60 997 assembleias de voto espalhadas por todo o país encerraram às 22h00 locais (21h00 em Lisboa) reabrindo às 07h00 de hoje.
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