Cessar-fogo atenua preocupações, mas analistas alertam contra otimismo excessivo
Preço do petróleo baixa, mas aumentam os riscos de "novas iniciativas potencialmente disruptivas como manobra política".
O cessar-fogo de duas semanas entre EUA e Irão deverá reabrir o estreito de Ormuz, atenuando as preocupações com o abastecimento e reduzindo o preço do petróleo, mas os analistas são unânimes em alertar contra um otimismo excessivo.
"A forma como o ponto central de discórdia -- o programa nuclear iraniano 'versus' as garantias de segurança dos EUA -- será resolvido permanece incerta. O mesmo se aplica à dinâmica regional mais ampla e às consequências políticas nos EUA, onde a ratificação de qualquer acordo pode enfrentar oposição interna", afirma o economista-chefe da Allianz Global Investors (Allianz GI), num comentário divulgado esta quarta-feira.
Para Christian Schulz, este cenário "aumenta o risco de novas iniciativas potencialmente disruptivas como manobra política", pelo que "parece justificar-se um prémio de risco geopolítico contínuo - e possivelmente elevado - nos preços da energia".
Já Paul Donovan, economista-chefe da UBS Global Wealth Management, nota que, "ao longo da guerra, os mercados têm tido tendência para ver o barril de petróleo como meio cheio e não meio vazio", estando por isso "inclinados a interpretar o cessar-fogo como um fim definitivo do conflito".
"No entanto, o baixo nível de confiança do Irão no compromisso da administração dos EUA com os acordos significa que é importante analisar os motivos desta mudança", alerta.
Conforme explica Donovan, "se a alteração de posição dos EUA tiver sido motivada pela política interna, isso poderá indicar um acordo mais duradouro", já que "o apoio interno à guerra era baixo".
"O clima que se mantém é de otimismo cauteloso, em vez de celebração total. O cessar-fogo tem apenas duas semanas de duração, e os mercados estarão atentos para ver se o tráfego marítimo pelo estreito de Ormuz se normaliza conforme prometido e se a frágil trégua pode abrir caminho para um acordo de paz mais duradouro", refere, por sua vez, o analista de mercado chefe da KCM Trade, Tim Waterer.
Na mesma linha, o estratega-chefe da Monex, Takashi Hiroki, considera que "há motivos para estar otimista", mas adverte que "ainda é demasiado cedo para ter a certeza, porque, afinal de contas, trata-se de Trump".
"Após um período de forte tensão nos mercados (...) a reação imediata [o preço do petróleo já caiu cerca de 15% para 95 dólares por barril], é compreensível: o cessar-fogo e, sobretudo, a reabertura parcial do estreito de Ormuz afastam o principal risco petrolífero a curto prazo e provocam um claro alívio nos ativos de risco", observa Charu Chanana, da Saxo Markets.
Já Stephen Innes, da SPI Asset Management, nota que, "assim que a Casa Branca recuou e substituiu a escalada iminente por um cessar-fogo condicional de duas semanas, o mercado do petróleo começou a recuperar um funcionamento mais fluido e equilibrado", com o desaparecimento do "prémio de risco" dos últimos dias.
"[Os investidores] esperavam desesperadamente notícias encorajadoras há várias semanas, e ainda mais desesperadamente ver medidas concretas tomadas com vista a uma desescalada e (...) agora estão, sem surpresa, dispostos a retomar níveis de risco significativos", acrescenta Michael Brown, da corretora Pepperstone.
Ainda assim, Stephen Innes adverte que, "para que esta evolução se confirme, os operadores precisarão de mais do que simples declarações diplomáticas": "Terão de constatar uma retoma efetiva do tráfego no estreito de Ormuz. Enquanto não estiver visivelmente reaberto, tratar-se-á de simples liquidações de posições, em vez de uma reavaliação sustentável dos preços", sustenta.
Na mesma linha, Charu Chanana avisa que "o cessar-fogo não resolve todos os riscos subjacentes" e "os investidores precisam sempre de saber se as hostilidades cessaram realmente, se o estreito permanecerá aberto de forma fiável e a que ritmo o abastecimento energético perturbado poderá ser restabelecido".
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