Correio da Manhã

Cientista brasileira procura vida em satélite de Saturno
Foto Getty
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Por Lusa | 12:43
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Rosaly acredita que o planeta terra poderá não ser o único com seres vivos.

A possibilidade de haver vida numa das luas de Saturno é o novo projeto de investigação da vulcanóloga brasileira e cientista sénior da NASA Rosaly Lopes.

Em declarações à Lusa, à margem da 42.ª assembleia do Comité para a Investigação Espacial (COSPAR, na sigla inglesa), Rosaly Lopes explicou que o projeto está focado no oceano de Titã, uma lua de Saturno que possui muitos hidrocarbonetos e tem, por debaixo de uma crosta de gelo, um oceano de água líquida.

"Estou a começar a trabalhar num projeto muito grande" que "é focado em astrobiologia", afirmou a cientista, salientando que a equipa de pesquisa junta análise de "geofísica, geologia, química, astrobiologia, para saber se tem possibilidade de vida ter-se desenvolvido no oceano de Titã".

A possibilidade de vida extraterrestre em Titã é o mais recente desafio na longa carreira de Rosaly Lopes, que trabalha no Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA em Pasadena, Califórnia.

A cientista é também vice-presidente do programa científico do COSPAR 2018, que decorre até 22 de julho em Pasadena.

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A investigação do oceano de Titã baseia-se nas informações recolhidas pela missão Cassini, dados teoréticos e experiências em laboratório.

O envolvimento de Rosaly Lopes acontece depois de a investigadora ter deixado o cargo de diretora da sessão planetária do JPL, que desempenhou durante cinco anos.

Além de Titã, a investigadora também está integrada na missão europeia Juice, que vai enviar uma nave para explorar as luas de Júpiter em 2022.

"Estamos começando a planear observações do sistema de Júpiter", disse a responsável, que é ainda editora chefe da revista científica Icarus, fundada por Carl Sagan e onde são publicados artigos de ciências planetárias.

Esta é uma área que está em grande expansão, também graças ao reforço orçamental da NASA por parte da administração de Donald Trump.

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As ciências planetárias receberam um aumento de 7,9% para 6,2 mil milhões de dólares (5,89 mil milhões de euros), uma fatia importante do orçamento total de 19,9 mil milhões de dólares da NASA.

"Estamos numa época muito boa para as ciências planetárias e exploração espacial, porque tem muitas missões mandadas pela Agência Espacial Europeia, além da NASA, e também outros países como Japão, China, Índia", disse Rosaly Lopes.

A cientista elogiou alguns projetos privados de exploração espacial, como os dos empresários Jeff Bezos e Elon Musk, mas sublinhou a importância das missões com financiamento público: "A NASA e as agências espaciais têm que fazer os projetos que não faz sentido fazer na área privada."

Rosaly Lopes, que nasceu e cresceu no Rio de Janeiro, licenciou-se em astronomia em 1978, em Londres, onde viveu 13 anos.

Especializou-se em geologia e vulcanologia planetária e doutorou-se em 1986, iniciando uma carreira científica marcada por vários prémios e descobertas importantes.

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Durante a participação na missão Galileo a Júpiter, descobriu 71 vulcões ativos na lua de Io, passando mais tarde para a equipa de investigação da Cassini.

NASA com mais mulheres
Rosaly Lopes, que trabalha como investigadora sénior no Jet Propulsion Laboratory (JPL) da NASA em Pasadena, Califórnia, diz que há "uma onda de mulheres" a entrarem na área das ciências planetárias.

A investigadora falou à Lusa à margem da 42ª Assembleia do Comité para a Investigação Espacial (COSPAR, na sigla inglesa), que decorre em Pasadena até 22 de julho e da qual é vice-presidente do programa científico.

"Realmente estamos vendo uma onda de mulheres jovens entrando nessa área. Agora quase que não se nota muita diferença em ciências planetárias", disse a investigadora, contabilizando em 30% a percentagem de cientistas femininas nesta área na NASA. "Quando comecei tinha muito poucas."

Rosaly Lopes, que se doutorou em geologia e vulcanologia planetária em 1986, sublinhou que o mesmo não se passa em astrofísica e que, nas áreas técnicas e de engenharia, a percentagem de mulheres é inferior.

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"É um pouco mais difícil que em ciências planetárias", afirmou. "É uma coisa que demora tempo para mudar."

A cientista deixou recentemente de ser diretora da sessão planetária no JPL e sublinhou que há algumas mulheres em posições de relevo no laboratório da agência espacial norte-americana, tais como assistentes técnicas do diretor.

"Acho que, no futuro, vamos ter talvez uma mulher diretora do laboratório", considerou.

A divulgação de exemplos é importante para aumentar o número de mulheres que investem em carreiras científicas, acredita Rosaly Lopes, citando os bons resultados do programa de edução de Sally Ride, astronauta norte-americana que criou um plano de edução para adolescentes.

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"É importante para as mulheres verem que existem outras mulheres trabalhando nessas áreas", sublinhou. "Só meninas vendo mais e mais mulheres dá um incentivo a elas".

No seu caso, Rosaly Lopes foi inspirada pelo programa Apollo, pela série televisiva "Star Trek" e pelo filme "2001: Odisseia no Espaço, além do trabalho de Frances Northcutt, a única mulher envolvida na missão Apollo 13.

"Queria ser astronauta, mas entendi muito cedo que sendo brasileira e ainda por cima míope ia ser muito difícil", afirmou. "Resolvi seguir astronomia e depois ciências planetárias e trabalhar para a NASA ajudando na exploração do espaço".

Envolvida num projeto de investigação de vida extraterrestre na lua Titã, do planeta Saturno, a cientista diz que gostaria de trabalhar numa missão de colonização, apesar de não saber se haverá alguma antes de se reformar.

Mas acredita que o futuro passará por ter colónias noutros planetas e na lua.

"Não sei se vai ser para muita gente morar lá realmente", disse, "mas a maneira que eu penso é como nós termos bases na Antártica". Bases na lua e em Marte, a acontecerem, terão como "principal razão" a pesquisa científica.

"Acho que nós vamos inventar maneiras da Terra poder sempre ser um lugar bom para os seres humanos", concluiu.

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