Declarações de eurodeputado belga desencadeiam críticas e ação judicial na Polónia
Guy Verhofstadt afirmou que "60.000 fascistas marcharam no sábado em Varsóvia, neonazis e supremacistas brancos".
O Presidente da Polónia qualificou esta sexta-feira como "inadmissíveis" as recentes declarações de um eurodeputado belga que rotulou os participantes da Marcha da Independência em Varsóvia, realizada no sábado passado, como "fascistas" e "neonazistas" durante um debate no Parlamento Europeu.
"As declarações feitas durante o debate são aos meus olhos, aos olhos do Presidente e especialmente de um polaco, absolutamente escandalosas. As declarações foram absolutamente inadmissíveis", disse Andrzej Duda, em declarações à televisão pública polaca TVP.
Durante um debate realizado na quarta-feira no Parlamento Europeu em Estrasburgo (França) sobre a situação do Estado de direito e da democracia na Polónia, o eurodeputado belga Guy Verhofstadt afirmou que "60.000 fascistas marcharam no sábado em Varsóvia, neonazis e supremacistas brancos".
"Não estou a falar em Charlottesville nos Estados Unidos, estou a falar de Varsóvia, na Polónia, a cerca de 300 quilómetros de Auschwitz-Birkenau [antigo campo de concentração e extermínio nazi]", disse Guy Verhofstadt, presidente do Grupo da Aliança dos Democratas e Liberais pela Europa e ex-primeiro-ministro da Bélgica (de 1999 a 2008).
Este debate parlamentar culminou numa resolução que poderá abrir caminho à aplicação de sanções ao Estado polaco.
Dezenas de milhares de nacionalistas marcharam no sábado passado na capital polaca para assinalar o Dia da Independência na Polónia, um acontecimento que também atraiu figuras de extrema-direita de outros países.
Os relatos e as imagens divulgadas da marcha, que contou com explosões de petardos, tochas e frases de ordem xenófobas, racistas ou anti-islâmicas, provocaram uma onda de críticas no estrangeiro, com alguns ´media' internacionais a usarem o termo "marcha fascista".
O próprio Presidente Andrzej Duda condenou, na segunda-feira, o tom nacionalista, xenófobo e antissemita que marcou o desfile.
"No nosso país, não existe nem há lugar nem acordo para a xenofobia, para um nacionalismo doentio, para o antissemitismo", disse então o chefe de Estado polaco.
As declarações do eurodeputado belga Guy Verhofstadt suscitaram, entretanto, fortes críticas na Polónia, incluindo uma ação judicial.
Dois eurodeputados conservadores polacos, Marek Jurek e Zdzislaw Krasnodebski, escreveram uma carta ao presidente do Parlamento Europeu, o italiano Antonio Tajani, a pedir que o ex-primeiro-ministro belga fosse sancionado na sequência das declarações proferidas em plenário.
A Liga polaca contra a Difamação, uma organização não-governamental (ONG) próxima do poder de Varsóvia, anunciou na quinta-feira que vai apresentar uma queixa junto da justiça polaca contra o eurodeputado belga.
A ONG também anunciou que irá iniciar diligências para proibir a entrada de Guy Verhofstadt em território polaco, ao classificar o eurodeputado "como uma pessoa indesejável".
"Já estou na lista negra de Putin [Vladimir, Presidente russo] e corro o risco de ser colocado na lista negra de Kaczynski [Jaroslaw, líder do Lei e Justiça (PiS), o partido nacionalista-conservador no poder na Polónia]", comentou Verhofstadt na sua conta na rede social Twitter.
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