Dezenas de pedófilos na barra do Tribunal
Com a sombra do fracasso do caso Outreau em pano de fundo começou ontem em Angers o maior julgamento por pederastia e incesto de que há memória em França. Trinta e nove homens e 27 mulheres são acusados de ter abusado sexualmente de 45 crianças, incluindo os próprios filhos ou netos, entre 1999 e 2002. Muitas das crianças, com idades entre seis meses e 12 anos, foram entregues para prostituição a troco de tabaco, comida ou pequenas quantias em dinheiro.
Depois do fracasso do caso Outreau, que no Verão passado resultou na absolvição de boa parte dos arguidos e na impossibilidade de provar a ligação dos condenados a redes de pedofilia, teme-se que os resultados deste processo sejam igualmente parcos. Há também suspeitas de implicação de redes de prostituição de menores, mas a investigação desse aspecto está ainda em curso.
O caso veio a público no final de 2000, depois de uma adolescente acusar de violação dois membros da sua família. Mas só em Fevereiro de 2002 começou a investigação formal por violação e prostituição de crianças, cuja fase inicial terminou há cerca de um ano. Dos 72 arguidos, seis foram entretanto libertados sem acusação.
Boa parte dos 66 acusados confessou os crimes, que se pensa tenham tido lugar sobretudo num apartamento de Angers, onde vivia um dos casais envolvidos.
Os receptores dos favores sexuais eram os próprios pais e avós das crianças, vizinhos e conhecidos dos pais, que criaram, segundo um advogado dos menores, “uma rede de prostituição infantil num clima de incesto generalizado”.
Após os erros de investigação do caso Outreau, que puseram em causa o Sistema Penal francês, desta feita o processo foi averiguado com cuidados redobrados. No entanto, devido à situação de pobreza dos arguidos, quase todos desempregados vivendo de pensões sociais, alguns acusam de incúria os Serviços Sociais, que não terão acompanhado devidamente a situação das famílias.
DURAÇÃO DO JULGAMENTO
Prevê-se que o julgamento se prolongue pelo menos durante quatro meses.
ARGUIDOS: 39 HOMENS e 27 MULHERES
Após uma investigação de dois anos foram elaborados processos de acusação por violação de menores contra 39 homens e 27 mulheres.
PROVAS INCRIMINATÓRIAS
As provas estão guardadas em cerca de 25 mil páginas gravadas em CD-Rom. O processo de acusação tem mais de 430 páginas.
MAIS DE 200 TESTEMUNHAS
Os advogados de defesa e os delegados do Ministério Público convocaram mais de 200 testemunhas, cujos depoimentos serão escutados caso a caso.
60 ADVOGADOS DE ARGUIDOS E VÍTIMAS
Os arguidos serão representados por 51 advogados, enquanto as crianças terão pelo seu lado nove representantes legais.
CUSTOS TOTAIS DO PROCESSO
Estima-se que os custos totais deste processo gigantesco ascendam a mais de um milhão de euros.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt