Correio da Manhã

Mundo
Filho de Seabra na revolta
27 de Janeiro de 2005 às 00:00
O filho do general Veríssimo Correia Seabra, ex-chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas da Guiné-Bissau, assassinado a tiro na revolta militar de 6 de Outubro passado na capital do país, é o porta-voz da Associação de Estudantes Guineenses, organização que desencadeou o assalto à missão diplomática em Moscovo, sequestrando o embaixador, e um dos mais destacados dirigentes estudantis africano na Rússia.

Luís Artur Correia Seabra, de 23 anos, está, há quatro anos, na Rússia, e frequenta o quarto ano de Direito.Luís Seabra foi um dos maiores dinamizadores do grupo de estudantes guineenses que, em 2000, quando chegou a Moscovo, fez renascer a Associação de Estudantes da Guiné- -Bissau na Federação Russa. A associação luta para “resolver os nossos problemas e para defender os nossos direitos como estudantes na universidade e na embaixada”, adiantou ontem ao CM Luís Seabra. Sublinhe-se que ele e o irmão Edson Silva Correia Seabra, de 25 anos, que estuda também em Moscovo Relações Internacionais, foram, em Agosto de 2004, agredidos por cabeças-rapadas russos, quando um grupo de 15 estudantes guineenses saíam de uma estação de Metro na capital russa.Relativamente ao ambiente que se vive no interior da embaixada, ao fim da tarde de ontem a situação não conhecia desenvolvimentos. Os estudantes garantiam, uma vez mais, que só abandonariam a embaixada após o pagamento de 13 meses de subsídios em atraso. Os bolseiros colocaram o sequestrado embaixador Rogério Herbert isolado num quarto e sem contacto telefónico. Contudo, Luís Seabra garantiu que “a integridade física do diplomata não está em risco”, sublinhando que o embaixador “tinha rejeitado qualquer intervenção policial já oferecida pelo Ministério russo dos Negócios Estrangeiros”. Além do embaixador, estavam também no interior da embaixada a sua filha, de 18 anos, o filho, de 23, o cônsul e a secretária.O CM apurou que o governo efectuou ontem, em Bissau, uma nova transferência de dinheiro, desta feita para a conta pessoal do embaixador através do Banco Central de Estados de África Ocidental . Refira-se que foi efectuada, por engano, segundo o governo, uma primeira transferência de dinheiro para a universidade, mas esta recusa-se a ‘libertar’ a verba para os estudantes porque alegadamente o estado guineense está também a dever dinheiro à universidade.Entretanto, em Lisboa, a Federação das Associações Cívicas do Espaço Lusófono envia hoje 771 euros para minimizar as condições na embaixada. Manuel Araújo, dirigente da FACEL, adiantou ao CM que “a associação está a preparar uma angariação de verbas com apoio dos países da CPLP, com excepção da Guiné-Bissau, para ajudá-los”. FAMÍLIA 'CAIU EM DESGRAÇA' NA GUINÉUm dos estudantes que aderiu ao protesto estudantil contra o governo de Bissau por falta de pagamento das bolsas de estudo é filho de Veríssimo Correia Seabra, o chefe de Estado-Maior das Forças Armadas assassinado, juntamente com o coronel Domingos Barros, em Outubro do ano passado. Assassinatos que deixaram o país em estado de choque e a família em desgraça. O general Seabra foi sempre um homem discreto, grande fumador, e sportinguista dos sete costados. Filho de pai cabo-verdiano e mãe da etnia manjaco, foi um dos mais respeitados e prestigiados militares do país. Em 1980, foi, juntamente com Emílio Costa, um dos operacionais que orquestraram o golpe contra o então presidente Luís Cabral. Com a subida ao poder de Nino Vieira, frequenta vários cursos de aperfeiçoamento em Portugal. Em 1998, Seabra, formado em artilharia antiaérea na ex- -União Soviética, é um dos rostos da Junta Militar que derrubou o presidente Nino Vieira. Como não há duas sem três, Veríssimo Seabra volta a apostar num golpe e derruba Kuamba Ialá para, dizia ele, “repor a legalidade constitucional”. Após o seu assassinato, o presidente da República, Henrique Rosa, nomeou o general, Batista Na Waie, chefe de Estado-Maior das Forças Armadas.

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