Flávio Bolsonaro usa proibição de apostas para tirar votos a Lula
Candidato quer mobilizar a fúria das claques de futebol, que perderam milhões em patrocínios, para ganhar vantagem sobre o atual presidente.
Numa estratégia que mistura a efervescência da política na reta final da campanha para a primeira volta das presidenciais, no domingo, com a paixão dos brasileiros por futebol, Flávio Bolsonaro parece estar a apostar na raiva das claques de futebol contra Lula da Silva por este ter extinguido as empresas de apostas que os financiavam para tentar tirar votos ao adversário.
Lula anunciou na semana a proibição das empresas de apostas online (BETs), que patrocinam as claques dos princiais clubes de futebol, provocando a fúria dos adeptos e levando vários clubes de topo do 'brasileirão' a recorrerem à justiça contra a medida. A campanha de Flávio tem monitorizado nas redes sociais a fúria de claques e adeptos pelo fim das BETs e os assessores do candidato acreditam que muitos adeptos estão desejosos de retaliar contra Lula pela medida, e por isso o candidato tem usado o tema para lançar ataques contra o adversário.
Cálculos da campanha de Flávio estimam que a proibição das BETs pode tirar 1% a 2% dos votos a Lula. Pode parecer pouco, mas numa eleição em que as sondagens mostram Lula e Flávio empatados, qualquer voto pode fazer a diferença. Em causa poderão estar, no limite, cerca de três milhões de votos.
Não há como garantir que quem eventualmente deixe de votar em Lula vá votar em Flávio, mas a ideia é que o atual presidente perca votos, mesmo que o filho de Jair Bolsonaro não os herde. Com isso, de acordo com a análise desses assessores, Flávio Bolsonaro conseguiria reverter, pelo menos em parte, os danos sofridos com a disseminação, apoiada pelo próprio Lula da Silva, dos boatos sobre a intenção de Flávio, que é evangélico, de tirar o título de Padroeira do Brasil à Nossa Senhora Aparecida.
Sondagens recentes mostram a importância que a perda de alguns votos pode ter numa eleição tão renhida. O Instituto Real Time Big Data estimou que os dois principais candidatos estão separados por apenas um ponto, atribuindo 46% das intenções de voto a Flávio e 45% a Lula, e o Instituto Quaest vaticinou um empate absoluto entre ambos, cada um com 42%.
Justiça eleitoral proíbe boato sobre Nossa Senhora Aparecida
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu, em definitivo, a difusão em qualquer plataforma do boato que há uma semana agita a campanha para as presidenciais e que atribui ao candidato Flávio Bolsonaro a intenção de, se for eleito, retirar o título de Padroeira do Brasil à Nossa Senhora Aparecida. A decisão só aconteceu nos últimos minutos do julgamento, na bquarta-feira à noite, depois de o relator do caso, o juiz André Mendonça, vice-presidente do TSE, ter mudado o seu sentido voto.
No voto inicial, Mendonça proibia qualquer publicação alusiva ao assunto, incluindo a do humorista António Tabet, que esteve na origem da polémica ao divulgar um comentário dizendo que a "família miliciana (numa alusão à suposta ligação de Flávio e do pai, Jair Bolsonaro, às milícias do Rio de Janeiro) tem tanto ódio das mulheres negras que quer tirar a Nossa Senhora o título de Padroeira do Brasil". Vários juizes acusaram Mendonça de censura e este, para não passar pelo constrangimento de ser derrotado pelos colegas, autorizou a publicação de Tabet alegando que o texto do humorista, disseminado amplamente pela campanha de Lula da Silva para atingir Flávio, era um comentário político que não podia ser proibido em nome da liberdade de expressão, até porque não cita nominalmente Flávio.
Com isso, foi mantida a proibição somente dos conteúdos que citavam Flávio Bolsonaro como autor ou defensor da proposta. Antes deste julgamento, o boato esteve na origem de uma série de decisões contraditórias entre vários juizes do Supremo Tribunal Federal (STF), e entre este tribunal e o TSE sobre este tema, que provocou um enorme desgaste na campanha de Flávio.
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