Jihad contra cristãos
Um dia depois de o Papa Bento XVI ter tentado acalmar a revolta do mundo muçulmano contra o seu discurso sobre o Islão, os ânimos continuavam ontem extremamente exaltados, com a al-Qaeda do Iraque a ameaçar com uma ‘guerra santa’ (jihad) contra os “adoradores da cruz” e Irão a acusar o Papa de alinhar na “cruzada dos EUA contra o Islão”.
“O adorador da cruz [Bento XVI] e o Ocidente serão derrotados como acontece no Iraque, Afeganistão e Tchetchénia. Vamos quebrar a cruz e derramar o vinho... Alá ajudará os muçulmanos a reconquistar Roma. Que Alá permita que os degolemos e faça dos seus descendentes e do seu dinheiro a recompensa dos mujahedines”, afirma um comunicado do Conselho da Shura Mujahedine, organização que reúne vários grupos terroristas iraquianos, incluindo o ramo local da al-Qaeda, num comunicado colocado na internet.
Já o líder espiritual do Irão, ‘ayatollah’ Ali Khamenei, condenou as palavras do Papa e considerou-as como “mais um elo da cruzada iniciada pelo americano Bush contra o Islão”. “O Grande Satã [EUA] está metido nisto”, afirmou Khamenei, juntando-se a um coro global de protestos no mundo islâmico que promete continuar, apesar das tentativas de Bento XVI em assegurar que as suas palavras foram mal interpretadas.
Numa tentativa de debelar a crise antes que a mesma atinja proporções incontroláveis, o Vaticano decidiu enviar os seus núncios (embaixadores) numa ofensiva diplomática junto dos países islâmicos para tentar clarificar o sentido das palavras do Sumo Pontífice.
Refira-se que, apesar das violentas reacções no mundo muçulmano, a visita do Sumo Pontífice à Turquia, prevista de 28 a 30 de Novembro, não foi cancelada.
As manifestações sucedem-se e, ontem, o líder da União Mundial de Ulemas Islâmicos, Yussef al-Qaradaui, pediu a todos os muçulmanos para expressarem a sua fúria contra Bento XVI num “dia de raiva” agendado para a próxima sexta-feira.
FÉRIAS LUSAS INALTERADAS
Os operadores turísticos em Portugal não esperam qualquer mudança no comportamento dos portugueses quando chegar a altura de marcar férias. “As pessoas já estão habituadas a este tipo de situações e, por isso, isto não nos preocupa”, declarou ao Correio da Manhã Apo Coruhlu, da agência Marmara.
O responsável revelou não acreditar que estas ameaças venham a afectar o turismo em Portugal, até porque quem viaja nesta altura do ano não tem esse tipo de preocupações. “Se as ameaças tivessem sido feitas há três meses, se calhar estávamos com mais receios”, adiantou Apo Coruhlu. Opinião idêntica tem José Manuel Antunes, do Mundo VIP.
“Os países árabes mais procurados pelos portugueses são Marrocos ou a Tunísia, que são muçulmanos de brandos costumes, onde estas ameaças não têm grande impacto”, sustentou.
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“PAPA NÃO QUIS ATACAR ISLÃO”
Para o bispo das Forças Armadas, D. Januário Torgal Ferreira, “é lamentável” a ameaça da al-Qaeda de atacar cristãos. “O Papa convidou ao diálogo e não teve qualquer intenção de atacar ou ferir o islamismo. As pessoas estão a levar tudo para o campo político e há quem queira responder com actos de destruição.”
'CONTRÁRIA AO ISLAMISMO'
Para o xeque o Munir, imã da mesquita de Lisboa, esta ameaça não tem qualquer ligação com os princípios do Islão. Viola os princípio do Islão. “O Papa já lamentou o sucedido e criou uma comissão para explorar a via diplomática. Vamos esperar os resultados”, afirmou. Para o xeque Munir, a resposta que o Papa deu ontem é um primeiro passo para manter abertas as portas do diálogo.
CHIRAC E A UE
O presidente francês Jacques Chirac recusou criticar o Papa, mas afirmou que “é de evitar tudo o que provoque tensão entre povos ou religiões”. Já a Comissão Europeia afirmou que os comentários do Papa foram “deliberadamente retirados do contexto”.
ANGLICANOS
O arcebispo de Cantuária, Rowan Williams, chefe da Igreja Anglicana, saiu em defesa do Sumo Pontífice, afirmando que o seu pedido de desculpas é “suficiente”, e relembrando a “forma positiva” como Bento XVI tem defendido o diálogo entre as religiões.
SOMÁLIA
As milícias islâmicas que controlam a capital da Somália, Mogadíscio, prometeram fazer tudo ao seu alcance para caturar os assassinos da freira italiana Leonella Sgorbati, morta a tiro num ataque alegadamente relacionado com o discurso do Papa.
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