Lula desafia Bolsonaro a mostrar contas bancárias
Presidente brasileiro diz-se disposto a fazer o mesmo e ameaça não participar no último debate se o adversário recusar.
Numa manobra eleitoral de surpresa que desconcertou o adversário e se transformou no principal assunto desta reta final da campanha para a segunda volta das presidenciais, no próximo domingo, Lula da Silva desafiou Flávio Bolsonaro a mostrar os seus registos bancários, fiscais e telefónicos para o Brasil "saber quem é o verdadeiro ladrão". O presidente cessante diz estar pronto a fazer o mesmo e ameaça não participar no último debate televisivo, na sexta-feira, se o adversário recusar o desafio.
A proposta de Lula foi inicialmente lançada no final do debate do passado domingo na TV Bandeirantes. “Eu vou fazer uma proposta para você, para abrirmos a nossa conta bancária e o nosso sigilo bancário para que o povo brasileiro saiba quem é ladrão nesse país. Eu abro o da minha família e você abre da sua, para que o povo saiba quem é corrupto e ladrão, senão eles vão ser enganados de novo”, disparou Lula na sua última intervenção no debate, após ser acusado diversas vezes por Flávio de corrupção.
Bolsonaro respondeu que isso não ia dar em nada porque Lula tinha enviado o dinheiro que roubou para outros lugares e não ia aparecer na conta, mas ficou claramente surpreendido e constrangido. Esta hesitação do adversário fez com que o desafio de Lula, que poderia não ter passado de uma bravata sem consequências, assumisse uma enorme proporção, com o veterano político a insistir no tema todos os dias, em todos os comícios, transformando o desafio numa verdadeira bandeira de campanha.
Mas o próprio Lula, que inicialmente disse que iria revelar voluntariamente todos os seus registos bancários e fiscais por estar cansado de ser chamado de ladrão, começou entretanto a modular e a restringir o desafio. Ao entregar uma autorização ao Tribunal Superior Eleitoral para a publicação desses registos, Lula colocou como condição que isso só poderia acontecer depois de Flávio fazer o mesmo.
Os conselheiros da campanha de Flávio veem nesse desafio de Lula uma armadilha e aconselharam o senador a não responder. Mas Lula decidiu dobrar a aposta e afirma agora que, se Flávio não aceitar o desafio, ele não irá ao último debate da campanha, marcado para a noite de amanhã, na TV Globo. “Se Flávio Bolsonaro apresentar um documento autorizando quebrar o sigilo, vai haver debate. Senão não vai haver debate. Porque um presidente da República não pode debater com um ladrão”, provocou ontem Lula durante uma caminhada com apoiantes em Pernambuco.
Lula pede anulação da candidatura de Flávio por alegado favorecimento da Meta
Advogados da campanha de Lula da Silva instauraram no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma ação pedindo a anulação da campanha de Flávio Bolsonaro por suposto abuso do poder económico e favorecimento por parte da plataforma Meta, dona do Facebook, Instagram e Whatsapp. No pedido, feito a escassos dias da segunda volta das presidenciais, a campanha de Lula acusa a Meta de ter agido de forma deliberada para restringir o alcance de conteúdos a favor do presidente e ampliar a divulgação dos conteúdos do adversário. A ação afirma que as ferramentas da Meta geravam imagens e propagandas relacionadas com Flávio mas se negavam a fazer o mesmo com imagens e conteúdos pró-Lula.
A petição também cita que, não obstante o perfil de Flávio ter vários milhões de seguidores a menos do que o de Lula, o filho de Jair Bolsonaro alcançava três vezes mais 'likes' do que o adversário nas suas publicações, numa amplificação algoritma atípica em favor de uma das partes, o que constitui crime eleitoral. Após pedido de esclarecimentos do TSE, cujo presidente, Kassio Nunes Marques, se reuniu com representantes da Meta e das campanhas de Lula e de Flávio e exigiu a adoção imediata de medidas que evitem novas distorções, a empresa reconheceu terem ocorrido várias falhas na distribuição de conteúdos mas garantiu que elas afetaram os dois candidatos e que não houve qualquer interferência eleitoral intencional.
O Comité de Supervisão da Meta, um órgão de fiscalização criado e financiado pela própria empresa mas com autonomia e formado por especialistas espalhados pelo mundo, criticou duramente as falhas, relatadas inclusive por funcionários em mensagens internas vazadas, lembrou que situações semelhantes já ocorrem há anos e afetaram processos eleitorais noutros países, mas que, mesmo assim, a gigante da tecnologia não fez o suficiente para impedir novos erros.
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