Massacre espera justiça

Foi há três anos. Era quinta-feira. Uma manhã como qualquer outra em Madrid. Hora de ponta. Milhares de pessoas a caminho do trabalho. Atocha superlotada. Eram 07h37 quando explodiu a primeira bomba, junto à gare dessa estação madrilena. Nos dois minutos seguintes outras nove bombas despedaçaram mais três comboios pejados de passageiros. O terrorismo islâmico que atacara Nova Iorque em 2001 chegava à Europa. O julgamento dos culpados pelo massacre, que vitimou 191 pessoas e causou danos físicos e psicológicos em cerca de duas mil, foi encetado a 15 de Fevereiro, mas a investigação prossegue e continua a revelar pormenores e a detectar culpados.

11 de março de 2007 às 00:00
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Os peritos continuam incapazes de identificar sete perfis genéticos encontrados em locais associados aos atentados e novos indícios apontam para a existência de outros colaboradores da célula terrorista responsável pelo massacre.

Entretanto, o juiz responsável pelo processo, Juan del Olmo, confirmou esta semana a acusação a um quarto autor material do ataque. Abdelilah Hriz, actualmente detido em Marrocos, foi incriminado por indícios descobertos num edifício em Leganés (onde se suicidaram sete dos terroristas) e na quinta de Chincon, arredores de Madrid, onde alegadamente foram fabricadas as bombas. Logo que seja extraditado, Hriz irá juntar-se ao espanhol de origem síria Moutaz Almallah Dabas, que a semana passada foi entregue pela Justiça britânica a Espanha, onde será formalmente acusado de cumplicidade no 11-M. Del Olmo, aliás, interrogou nos últimos dias três novos suspeitos. Abdlekrim Lebchina, Rachid Mabchour e Tarik Hamed Hamu, detidos no final de Fevereiro, terão ajudado alguns terroristas a escapar após as explosões.

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Recorde-se que foram inicialmente acusados 29 suspeitos no âmbito do julgamento, durante o qual serão ouvidas pelo menos 680 testemunhas. A Procuradoria pede, ao todo, 270 mil anos de prisão para os arguidos.

Nas audiências realizadas desde 15 de Fevereiro foram já ouvidos todos os acusados. Os interrogatórios iniciais, sumários, ficaram marcados por repetidas alegações de inocência de todos os arguidos, em cumprimento, aliás, do que determina o manual do radicalismo islâmico em situações de interrogatório.

TODOS INOCENTES...

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Uma das poucas confissões partiu de Fouad el Morabit. Acusado de cumplicidade, Morabit, que poderá ser condenado a 12 anos de prisão, admitiu ter ouvido o alegado cérebro dos atentados, Serhane Ben Abdelmajid (um dos suicidas de Leganés) a dizer: “Algo muito forte vai acontecer.” Apesar disso, jura não ter sabido nessa altura que se tratava de um atentado.

O julgamento entra agora na fase mais morosa, durante a qual serão escutados os testemunhos de investigadores, testemunhas oculares e especialistas, num total de 680 pessoas. Número que pode crescer com o evoluir das investigações. Para os familiares das vítimas e sobreviventes está ainda dolorosamente longe a última palavra da Justiça.

PRINCIPAIS SUSPEITOS DO PLANEAMENTO DOS ATAQUES

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Rabei Osman, ‘O egípcio’

- Implicação directa na organização do 11-M

- Pena pedida: 38 656 anos de prisão

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- Detido em Milão

- Situação actual: DETIDO

- Idealização e preparação efectiva dos atentados

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- Pena pedida: 38 656 anos de prisão

- Detido em Lanzarote

- Situação actual: DETIDO

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- Os atentados foram reivindicados em seu nome

- Pena pedida: 38 656 anos de prisão

- Detido na Bélgica

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- Situação actual: DETIDO

PRESUMÍVEIS AUTORES MATERIAIS

- Facilitar os cartões de telefone. Testemunhos situam-no num dos comboios

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- Pena pedida: 38 656 anos de prisão

- Detido em Madrid

- Situação actual: DETIDO

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- Participação na execução dos atentados

- Pena pedida: 38 656 anos de prisão

- Detido em Belgrado

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- Situação actual: DETIDO

- Segundo testemunhos, um dos autores

do massacre

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- Pena pedida: 38 656 anos de prisão

- Detido em Ugena (Toledo)

- Situação actual: DETIDO

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Quem viveu o dia em que dez explosões mudaram a História da Espanha não esquece. As feridas físicas sararam ou já não doem, mas as outras, as da memória, nem duas vidas apagam

- Estava em frente ao vagão que explodiu em Atocha. Comecei a correr. A segunda bomba atirou-me ao chão. Choro todos os dias pelas pessoas que perderam o comboio da vida... Alberto

- Explodiu a primeira bomba e saí como pude do vagão. Tentei ajudar uma rapariga caída, mas disseram-me que estava morta. Explodiu a segunda bomba e alguém me arrancou dali, puxando-me por um braço. Quando encontrei o meu irmão, parecia um fantasma. Tinha metralha na cara e não conseguia ouvir. Abraçámo-nos e chorámos... Paco

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- Entrei no terceiro vagão porque no primeiro ia uma senhora de quem não gostava. Ela salvou-me a vida. O nosso vagão não sofreu nada, nem sequer os vidros se partiram... Esther Babiano López

- Recordo vozes a gritar: “É uma bomba”! Comecei a correr. Quando estava na última escadaria rolante, uma explosão. Tudo treme em meu redor. Não respiro, tenho a garganta a arder. Caio de joelhos e penso: “Meu Deus, que acabe já!” Ángel D.R.

- Fiquei ferida numa perna, mas isso não dói. Dói é pensar naqueles que nunca mais vão poder desfrutar de coisa simples como ver a família ou passear ao sol. E dói pensar que todos fazem a mesma pergunta que eu: Porquê?” Nuria

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NOVO MEMORIAL EM ATOCHA

Os reis de Espanha, Juan Carlos e Sofia, inauguram hoje um novo monumento às vítimas, em Atocha – uma cúpula em vidro com 11 metros de altura.

As vítimas dos 11-M serão recordadas em cerimónias em mais de 50 cidades espanholas, numa iniciativa que terá também eco em outros países europeus.

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REFORÇAR A COOPERAÇÃO

O Conselho da Europa aproveitou a data e apelou à comunidade internacional para reforçar a cooperação internacional no combate ao terrorismo.

INDEMNIZAÇÕES PAGAS

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Quase todos os sobreviventes e familiares da vítimas receberam as indemnizações do Estado. Até ao momento foram pagos 64 milhões de euros.

OSAMA BIN LADEN CONTINUA A SER O MOTOR DO TERRORISMO GLOBAL

Caso esteja vivo, Osama bin Laden cumpriu ontem 50 anos. Sem celebrações, é claro, porque o seu ramo do Islão, de base wahhabita, proíbe este tipo de festividade (classificando-a como ‘bida’, ou inovação). Segundo muitos especialistas, o fundador da al-Qaeda está refugiado nas montanhas da área tribal do Paquistão próxima da fronteira afegã. É aí que, alegadamente, funcionam os novos campos de treino de terroristas, pequenas células com um máximo de vinte pessoas, onde se aprende os fundamentos do islamismo radical e se treina o fabrico de bombas e a organização de atentados.

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Não há certezas quanto à actual situação e paradeiro do homem que saudou, e presumivelmente ajudou a organizar, o massacre de 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque. Mas uma coisa parece certa:mantém intacta a sua influência.

O jornalista Peter Bergen, perito em terrorismo e analista habitual do tema para a CNN, defende que não tem fundamento a ideia de um Bin Laden envelhecido, doente e isolado do Mundo. “É possível que já não possa usar um telefone satélite para ordenar atentados, mas continua a deter o controlo ideológico e estratégico da al-Qaeda em todo o Mundo”, afirma Bergen, apontando como exemplo da sua forma de exercício da autoridade as mais de 50 gravações de áudio e vídeo que ele e o outro líder terrorista, Ayman al-Zawahiri, divulgaram desde o 11 de Setembro.

“Em 19 de Outubro de 2003, por exemplo, Bin Laden fez um chamamento à realização de atentados em Espanha para castigar a presença de soldados seus no Iraque. Seis meses depois um grupo de terroristas matou 191 pessoas em Madrid.” A este exemplo Bergen acrescenta o dos atentados de 7 de Julho de 2005, no metro de Londres. Laden tinha declarado uma trégua na Primavera de 2004, desafiando os países europeus com tropas no Iraque a retirarem. Quase exactamente um ano depois da declaração da trégua, uma célula sob direcção da al-Qaeda, ou inspirada por ela, atacou o sistema de transportes de Londres.

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Este ressurgimento da organização terrorista mais temida do Mundo tem sido especialmente marcado nos últimos três anos, durante os quais, segundo Bergen, o número de atentados de jihadistas aumentou 600%. Este reforço é ilustrado diariamente no Iraque e Afeganistão, onde atentados sangrentos continuam a impossibilitar a consolidação de estruturas de poder e de produção económica, mas é igualmente sentido no Ocidente, que vive sob a ameaça permanente de um novo 11 de Março.

MILHARES PROTESTAM CONTRA CEDÊNCIAS À ETA

Numa acção sem precedentes, o Partido Popular (PP) espanhol, na oposição, consegui reunir ontem em Madrid centenas de milhar de pessoas numa das maiores manifestações contra a alegada política de cedências do governo de José Luis Zapatero à ETA. Além de milhares de bandeiras espanholas e cartazes com fotos das vítimas do terrorismo basco, os manifestantes – muitos dos quais viajaram em autocarros do PP a partir de vários pontos do país – exibiram laços azuis, símbolo usado nos anos 90 por organizações pacifistas bascas para pedir a libertação de reféns da ETA e que agora foi utilizado pelos populares.

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A megamanifestação estava prometida desde que o governo colocou o etarra Iñaki de Juana Chaos, acusado de vários homicídios, em prisão domiciliária.

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