Ministro da Saúde desafia e pergunta a Bolsonaro se está preparado para ver camiões a carregar mortos por coronavírus
Presidente ameaçou demitir o ministro da Saúde mas foi contido por outros ministros.
"Está preparado para o pior cenário, com camiões do Exército a transportar corpos (de vítimas do Coronavírus) pelas ruas? Com transmissão ao vivo na Internet e na televisão?". Foi com esta pergunta que o ministro da Saúde brasileiro, Luiz Henrique Mandetta, tentou fazer o presidente Jair Bolsonaro acordar para a gravidade da pandemia de coronavírus, que até este domingo infetou mais de 4000 pessoas e matou ao menos 117 no país.
A dura pergunta, a que Bolsonaro reagiu muito mal, foi feita, segundo fontes ligadas ao governo que falaram sob anonimato, durante uma tensa reunião de vários ministros com o presidente sobre o combate à pandemia, que o chefe de Estado brasileiro continua a negar existir.
Na reunião, em que os ânimos ficaram ao rubro como normalmente acontece quando Bolsonaro é contestado ou desafiado, o ministro da Saúde, cujo trabalho tem sido unanimemente elogiado, irritou ainda mais o presidente ao dizer que não ia deixar de defender o isolamento e a quarentena como formas de tentar evitar o avanço da doença.
Bolsonaro tem pressionado fortemente Mandetta para este amenizar as orientações e negar a gravidade da pandemia, pois as medidas restritivas que o ministro, governadores e autarcas defendem estão a paralisar a economia, no que o presidente avalia ser uma espécie de conspiração para prejudicar o seu governo.
O momento mais tenso da reunião, no entanto, foi quando Luiz Henrique Mandetta afirmou que se aliados de Bolsonaro continuarem a ir para as ruas pedir à população para sair de casa e violar as regras de quarentena, pondo vidas em risco, ele, como ministro da Saúde, vai criticar e dizer aos cidadãos para não deixarem o isolamento. Nessa altura, segundo as mesmas fontes, Bolsonaro ficou verdadeiramente fora de si e disse que ia demitir Mandetta, o que parece só não ter acontecido porque outros ministros intervieram.
Mostrando uma total indiferença às previsões de que, sem isolamento e outras medidas restritivas, o coronavírus poderá matar milhares de brasileiros, Jair Bolsonaro e os seus filhos têm comandado uma grande operação tendente a desmontar as medidas adoptadas por governantes estaduais e municipais, ou, ao menos, a que a população não as respeite.
O governo criou uma campanha de rádio e televisão denominada "O Brasil não pode parar", que foi proibida pela justiça este sábado, pouco antes de começar a ser veiculada pelos grandes meios de comunicação para exortar as pessoas a violarem a quarentena, mas a família Bolsonaro, como sempre faz quando uma das suas acções é limitada pelo Congresso ou por algum magistrado, passou a disseminar o vídeo pelas redes sociais.
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