Mundo recorda barbárie

Só lá estavam aqueles demasiado fracos para andar. Eram apenas pele e osso, mal se conseguiam aguentar em pé... É impossível de descrever”. Ainda hoje, seis décadas depois de ter sido um dos primeiros soldados soviéticos a entrar no campo da morte de Auschwitz, Yakov Vinni-chenko tem dificuldade em traduzir por palavras o horror que encontrou.

27 de janeiro de 2005 às 00:00
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Apesar dos seus 78 anos, Vinnichenko vai lá estar, hoje, ao lado dos líderes mundiais, para assinalar o 60.º aniversário da libertação do campo. E rezar para que o mundo não esqueça.

Vinnichenko fazia parte da 322.ª Divisão de Infantaria do Exército Soviético, uma das primeiras a entrar no complexo de Auschwitz-Birkenau a 27 de Janeiro de 1945. “Deparámos com um barracão imundo, cheio de mulheres esqueléticas. Agarravam-se umas às outras para não cair. Os alemães deixaram-nas para trás, não tiveram tempo para as queimar nos fornos ou para as matar”, recorda.

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Quando os soviéticos entraram no campo, encontraram apenas sete mil sobreviventes. A maioria dos prisioneiros tinham sido levados para outros campos de concentração, ou mortos. Vários fornos crematórios semidestruídos eram a prova da tentativa desesperada dos nazis para encobrir a barbárie. Também ficaram para trás os objectos pessoais das vítimas, os cabelos das mulheres, os dentes de ouro, os óculos, tudo aos milhares.

Auschwitz é hoje um museu a céu aberto, um memorial à barbárie dos homens. Um local para reflectir em silêncio. Entre 1940 e 1945 foram ali mortas 1,5 milhões de pessoas, na sua maioria judeus, mas também prisioneiros polacos e soviéticos, ciganos, comunistas e homossexuais. Não era o único campo de extermínio criado pelos nazis, mas era de longe o maior: não apenas um campo, mas um vasto complexo de campos, para onde convergiam comboios carregados de prisioneiros provenientes de toda a Europa ocupada.

“Quem não podia trabalhar era enviado para Birkenau, o campo da morte. Sabíamos o que os esperava, podíamos cheirá-lo. Era o cheiro adocicado da carne queimada, um cheiro inesquecível”, lembra Adam Koenig, um judeu alemão para ali enviado em Outubro de 1942. “A minha primeira impressão foi a de que o Inferno devia ser parecido com aquilo. Muitos não aguentaram e suicidaram-se”. Koenig aguentou e hoje não perde uma oportunidade para falar sobre o que sofreu, apesar da dor das recordações. “Acredito que quem passou por esta experiência tem que fazer alguma coisa. Temos a responsabilidade de assegurar que aquilo por que passámos não foi em vão”, afirma.

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LÍDERES JUNTO PARA DIZER ^"NUNCA MAIS"

Dezenas de sobreviventes do campo de concentração de Auschwitz juntam-se hoje a alguns dos soldados russos que libertaram o campo há 60 anos e a mais de quarenta líderes mundiais, para uma cerimónia solene destinada a assinalar o aniversário da libertação do campo e garantir que a barbárie que ali teve lugar nunca será esquecida, sob pena de se voltar a repetir.

A cerimónia é o ponto alto de uma série de iniciativas em vários países com vista a assinalar a data, que incluiu um inédito debate na ONU, na segunda-feira, sobre os horrores do Holocausto, e a inauguração de um monumento em Paris em memória dos mais de 70 mil judeus franceses enviados para a morte nos campos de concentração nazis.

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Os presidentes da Alemanha, Polónia e França e o vice-presidente dos EUA são alguns dos líderes mundiais presentes.

CONSTRUÍDO EM 1940

Auschwitz começou por ser usado como campo de trabalho para prisioneiros polacos, mas foi sendo gradualmente ampliado e transformado numa autêntica ‘fábrica de morte’.

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COMPLEXO DE MORTE

O campo de Auschwitz-Birkenau era, na realidade, um vasto complexo formado por 3 campos principais e 36 subcampos, que ocupavam uma área de 40 quilómetros quadrados nos arredores da cidade polaca de Oswiecim (Auschwitz para os alemães).

BIRKENAU

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Birkenau, também conhecido como Auschwitz II, era o campo onde ficavam situadas as câmaras de gás e os crematórios. Começou a ser construído em 1941 e tinha capacidade para cem mil prisioneiros.

SOBREVIVENTES

Cerca de 200 mil pessoas que passaram pelo campo entre 1940 e 1945 sobreviveram. A maioria foi transferida para outros campos.

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