Novo filme do horror

O escândalo de torturas na prisão norte-americana de Abu Ghraib, Iraque, volta a perseguir os EUA. Tudo porque uma TV australiana divulgou novas imagens da brutalidade exercida sobre os prisioneiros.

16 de fevereiro de 2006 às 00:00
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Numa altura em que o ódio antiocidental está ao rubro no mundo islâmico, a revelação das imagens ameaça atear mais ainda o rastilho da ‘guerra’ de civilizações.

A TV pública SBS (Special Broadcasting Services) afirma que as fotografias e vídeos inéditos foram obtidos na mesma altura dos que causaram a revolta internacional em 2004. O facto de virem agora a lume prende-se, afirmam responsáveis da televisão, com o facto de o escândalo não se ter reflectido na punição de altos responsáveis das forças armadas e do governo norte-americano. De facto, foram julgados cerca de 25 responsáveis, mas apenas nove soldados foram condenados. Os oficiais foram ilibados, à excepção da comandante de Abu Ghraib da altura, Janis Karpinsky, que foi despromovida de general para coronel.

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As novas fotos mostram presos a sangrar, queimados com pontas de cigarro, algemados a camas, portas ou grades, cobertos de excrementos ou cortados por lâminas e sujeitos a humilhações sem conta. Num pequeno filme um preso é forçado a masturbar-se para a câmara e outro a bater com a cabeça contra uma parede.

À semelhança das anteriores, as novas imagens mostram frequentemente soldados dos EUA a sorrir junto dos presos nus e brutalizados. Um dos militares que surge em várias fotos é Charles Graner, já condenado a dez anos de prisão por envolvimento nas torturas.

Todo este material foi mostrado em sessão especial no Congresso dos EUA, mas a administração do presidente George W. Bush fez os possíveis por evitar a sua chegada ao conhecimento público. Bryan Whitman, porta-voz do Pentágono, considerou que os abusos em Abu Ghraib já foram devidamente investigados e punidos. “Pensamos que a revelação destas imagens vai causar mais violência desnecessária no mundo”, afirmou.

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De facto, a revolta causada pela publicação dos ‘cartoons’ de Maomé foi aumentada no domingo pela revelação de um filme de agressões a adolescentes iraquianos por soldados britânicos. Quanto às imagens da SBS, o impacto da sua reprodução em canais de TV árabes está ainda no início. “Isto é a verdadeira face negra dos EUA com que nenhum país do mundo pode competir”, afirmou Saleh al-Humaidi, jornalista do Iémen.

O escândalo das torturas na prisão iraquiana de Abu Ghraib rebentou em Abril de 2004. Foi um duro golpe para a imagem dos EUA no mundo, que avançaram para o Iraque com a promessa de instaurar a democracia e liberdade. Uma imagem que ficou ainda mais ‘beliscada’ quando se soube que um dos ‘abusadores’ foi uma mulher, a soldado Lynndie England (foto), de 22 anos, que se encontrava grávida. A militar foi condenada a três anos de prisão, pediu desculpas públicas e confessou que agiu sob pressão do seu noivo e pai do seu filho, o cabo Charles Graner, condenado a dez anos de prisão.

CRONOLOGIA DAS SEVÍCIAS

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28 ABRIL 2004

A cadeia de televisão norte-americana CBS exibe imagens filmadas no ano anterior com presos iraquianos a serem torturados e abusados por militares dos EUA.

30 ABRIL 2004

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Seis soldados norte-americanos são acusados. Mais tarde, são acusados outros três.

6 MAIO 2004

O presidente norte-americano, George W. Bush, pede desculpas pelos abusos.

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19 MAIO 2004

É levado a tribunal marcial e condenado o primeiro soldado envolvido no escândalo. Outros serão condenados pouco tempo depois.

21 JULHO 2005

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O governo norte-americano tenta bloquear, recorrendo aos tribunais, a exibição de novas imagens.

29 SETEMBRO 2005

Um juiz dá luz verde à publicação de 87 fotos de presos iraquianos a serem maltratados por militares norte-americanos.

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15 FEVEREIRO 2006

A televisão australiana SBS difunde novas imagens de abusos de presos em Abu Ghraib.

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