ONG denuncia quase 40 mortos em confronto entre polícia e populares em Moçambique
Números desmentem dados relatados pela polícia moçambicana, que avançou apenas sete mortes.
O presidente da Organização Não-Governamental (ONG) moçambicana Kóxukhuro denunciou hoje a morte de pelo menos 38 pessoas em confrontos entre a polícia e populares em Nampula, no norte de Moçambique.
Em conferência de imprensa, hoje, em Nampula, o presidente daquela ONG local de defesa dos direitos humanos reagiu ao anúncio da Polícia da República de Moçambique (PRM), em dezembro, da morte de um polícia e de seis membros do grupo de guerrilheiros tradicionais, designado naparamas, durante confrontos no distrito de Mogovolas.
"Não é verdade a informação divulgada oficialmente pela PRM. O que aconteceu foi, de certa forma, um massacre. Os números anunciados não correspondem à realidade. Nós estivemos no terreno e confirmámos 38 mortes", afirmou hoje Gamito Dos Santos, presidente da Kóxukhuro.
Contactada pela Lusa, fonte oficial da PRM em Nampula limitou-se a dizer que não há novos esclarecimentos a prestar sobre as mortes registadas no distrito de Mogovolas, naquele incidente, reiterando que todas as informações foram devidamente apresentadas anteriormente e sublinhando que o posicionamento oficial permanece inalterado, sem dados adicionais aos divulgados.
Já segundo a ONG, durante os confrontos, pelo menos 13 pessoas terão sido feridas e várias encontram-se em tratamento médico, havendo também bens destruídos, incluindo 27 motorizadas queimadas e outras que "foram recolhidas pela polícia para um destino desconhecido".
"Temos provas de que mulheres e crianças foram mortas. Nenhuma delas ostentava símbolos ou fitas, como a polícia alega", referiu o responsável, acrescentando que o confronto está ligado à exploração de garimpo ilegal na região, que envolve pagamentos ilícitos e disputas comerciais, além de interesses económicos protegidos por entidades influentes, o que terá levado à intervenção das forças policiais.
"Vamos exigir uma investigação séria e transparente para responsabilizar quem deu ordens para disparar e toda a cadeia de comando envolvida", anunciou Gamito Dos Santos.
Segundo a explicação anterior da polícia, o confronto ocorreu na madrugada de 28 de dezembro, em Mogovolas, após naparamas e alegados simpatizantes do Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (Anamola), partido liderado por Venâncio Mondlane, munidos de catanas, azagaias, marretas e bombas caseiras, atearem fogo a uma posição policial e agredirem os agentes.
Segundo Rosa Chaúque, porta-voz da PRM em Nampula, presume-se que a invasão à posição policial visava a posse do material bélico da corporação para "desestabilizar a ordem pública", o que obrigou a um reforço do contingente.
"A polícia foi chamada a responder e a repor a ordem pública, onde, infelizmente (...) um total de seis indivíduos perderam a vida nestas ações e cinco foram detidos", disse a porta-voz.
Rosa Chaúque avançou, na altura, que a situação estava controlada, havendo agentes da polícia posicionados em locais propensos a ocorrência de "atos de desordem pública".
Os naparamas, guerreiros tradicionais respeitados nas comunidades do norte e centro, surgiram na década de 1980, durante a guerra civil, aliando conhecimentos tradicionais e elementos místicos no combate aos inimigos, atuando em comunidade.
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