Polícia moçambicana deteve 16 pessoas por "desinformação" sobre cólera na Zambézia
Desinformação tem levado as comunidades a agredirem, às vezes até à morte, profissionais de saúde envolvidos na distribuição de cloro, produto químico que mata a bactéria que provoca a doença.
Dezasseis pessoas foram detidas na província moçambicana da Zambézia por "desinformação" sobre a cólera, anunciou o ministro do Interior, Pascoal Ronda, referindo que a mentira sobre a doença tem resultado em linchamentos e destruição.
Ronda, citado este sábado pelo jornal Notícias, o principal diário de Moçambique, afirmou que as detenções ocorreram entre maio e novembro, em três localidades da província da Zambézia.
"Estes comportamentos [de desinformação] impedem o sucesso das ações que o Governo tem empreendido para o bem-estar da população e, sobretudo, constituem violações à lei", declarou.
Os boatos sobre as causas da cólera têm levado as comunidades a agredirem, às vezes até à morte, profissionais de saúde envolvidos na distribuição de cloro, produto químico que mata a bactéria que provoca a doença.
Os boatos sobre a origem da doença "atentam contra a integridade física daqueles que se predispõem a ajudar na solução desta problemática, além de causaram danos em infraestruturas públicas e privadas, tais como postos de saúde, postos policiais e residências comunitárias", declarou o ministro do Interior.
Os promotores da onda de desinformação fazem a população acreditar que os profissionais de saúde e os líderes comunitários são os responsáveis pelo alastramento da bactéria que propaga a cólera, quando distribuem cloro.
O surto de cólera em Moçambique agravou-se nas últimas semanas, com mais 2.200 novos casos e seis mortes, elevando para 150 o número de mortes desde setembro de 2022, segundo dados oficiais a que a Lusa teve acesso.
De acordo com o mais recente boletim sobre a progressão da doença, elaborado pela Direção Nacional de Saúde Pública, o atual surto de cólera em Moçambique regista um acumulado de 36.617 casos, de 14 de setembro de 2022 até 8 de novembro de 2023.
O Governo moçambicano anunciou na terça-feira o envio de brigadas para quatro províncias do país afetadas pela cólera, visando monitorizar a situação e procurar soluções para travar a doença, um dia depois do anúncio de surtos em alguns distritos.
As brigadas serão enviadas a partir de sexta-feira para Nampula e Cabo Delgado (no norte do país) e Zambézia e Tete (no centro), províncias que "dão sinais da necessidade de uma abordagem mais acutilante sobre a eclosão de vómitos e diarreias", associados à cólera, disse Filimão Suaze, porta-voz do Conselho de Ministros, durante uma conferência de imprensa após a reunião do executivo, em Maputo.
A cólera é uma doença que provoca fortes diarreias, que é tratável, mas que pode provocar a morte por desidratação se não for prontamente combatida.
A doença é causada, em grande parte, pela ingestão de alimentos e água contaminados por falta de redes de saneamento.
Em maio, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que o mundo terá um défice de vacinas contra a cólera até 2025 e que mil milhões de pessoas de 43 países podem ser infetadas com a doença, apontando, já em outubro, Moçambique como um dos países de maior risco.
Moçambique é considerado um dos países mais severamente afetados pelas alterações climáticas no mundo, situação que agrava a resistência de infraestruturas e serviços que permitam evitar a doença.
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