Pontos essenciais: A ascensão dos Houthis das montanhas do Iémen à cena regional com o apoio do Irão

À semelhança de outros grupos armados da região, estes combatentes partilham uma ideologia islamista hostil ao Ocidente, sintetizada no seu lema: "Morte à América, morte a Israel".

22 de outubro de 2026 às 15:03
Houthis atacam cidades sauditas com mísseis e drones Foto: YAHYA ARHAB
Partilhar

De movimento insurrecional no norte do Iémen, os Huthis afirmaram-se, em duas décadas, como um ator regional capaz de ameaçar o tráfego marítimo mundial e a Arábia Saudita, capitalizando o apoio do Irão.

À semelhança de outros grupos armados da região, membros daquilo a que Teerão chama o "Eixo da Resistência", estes combatentes partilham uma ideologia islamista hostil ao Ocidente, sintetizada no seu lema: "Morte à América, morte a Israel".

Pub

Contudo, ao contrário do Hezbollah libanês, não foram criados pela República Islâmica.

Convergência de interesses

"Inicialmente, não existiam relações estruturadas entre o Irão e o movimento", explica Mohammed Azzan, investigador de pensamento islâmico que testemunhou o aparecimento do grupo em Saada, no norte do país, na década de 1990. "As relações desenvolveram-se gradualmente, à medida que ambas as partes encontraram interesses comuns".

Pub

A ligação reforçou-se significativamente após a guerra em Gaza e o enfraquecimento do Hamas palestiniano e de outros aliados de Teerão no Médio Oriente. No entanto, os Huthis não são um "grupo às ordens do Irão", salienta Maysaa Shuja al-Deen, investigadora do Sana'a Center for Strategic Studies.

A rápida ofensiva lançada em setembro ao longo da costa do mar Vermelho ilustra esta convergência de interesses.

O controlo do estratégico estreito de Bab el-Mandeb, numa altura em que Teerão mantém bloqueado o estreito de Ormuz, do outro lado da península Arábica, "aumenta o poder negocial do Irão", ao mesmo tempo que confere aos Huthis "uma enorme capacidade de pressão" sobre Riade, salienta Thomas Juneau, da Universidade de Otava.

Pub

De Saada à conquista do Iémen

Quando foi lançado, em 2001, o movimento apresentava-se como uma força representativa dos interesses de Saada, berço do zaidismo -- um ramo do xiismo distinto da corrente praticada no Irão --, cujos representantes governaram o norte do Iémen durante séculos e se consideravam entretanto marginalizados pelo poder central de Sana.

O seu fundador, Hussein Badreddine al-Huthi, filho de uma importante autoridade religiosa, já denunciava a política israelita e a influência norte-americana no Médio Oriente, recorrendo a uma retórica inspirada na Revolução Islâmica iraniana.

Pub

Al-Huthi seria morto pelas autoridades iemenitas em 2004, e o grupo, posteriormente denominado Ansar Allah (Partidários de Deus), radicalizou-se sob a liderança do seu irmão, Abdel Malek al-Huthi.

Refugiados nas montanhas do norte, os seus apoiantes travaram seis guerras contra o Presidente Ali Abdallah Saleh, antes de aderirem à revolta que o afastou do poder em 2012.

Em 2014, porém, os Huthis aliaram-se ao antigo Presidente Saleh e assumiram o controlo do poder em Sana, dando início à conquista de vastas parcelas do território.

Pub

O antigo presidente seria morto três anos depois, após se voltar contra os seus antigos aliados.

A intervenção da Arábia Saudita, à frente de uma coligação militar que apoiava o Governo exilado no sul do país, aumentou o interesse do seu rival iraniano pelos Huthis, embora Teerão negue prestar-lhes apoio.

A ajuda deixou de se limitar ao fornecimento de carregamentos de armas, passando a incluir também a transferência de conhecimentos e competências nas áreas militar, da comunicação e das técnicas de negociação, relata Shuja al-Deen.

Pub

Lançada nos subúrbios do sul de Beirute, reduto do Hezbollah, antes de se instalar em Sana, a estação televisiva Almasirah divulga a propaganda huthi e os discursos do seu líder, Abdel Malek al-Huthi.

Raramente visto em público, Abdel al-Huthi cultiva a imagem de guia espiritual e defensor do mundo muçulmano contra o Ocidente e os países do Golfo, que acusa de servirem os interesses norte-americanos.

Uma guerra "assimétrica"

Pub

Graças ao aliado iraniano, os Huthis apetrecharam-se com drones e mísseis de longo alcance, o que lhes permitiu estabelecer uma "relação de forças assimétrica" com o reino saudita, salienta Thomas Juneau.

Durante anos, resistiram aos ataques sauditas, "explorando a geografia do Iémen", ao mesmo tempo que "infligiam danos desproporcionados" ao país vizinho, através de ataques contra as suas infraestruturas.

Após a trégua negociada em 2022, o movimento reforçou as capacidades de produção militar e diversificou as cadeias de abastecimento, recorrendo a fontes que vão da China à Rússia, passando por redes de contrabando no Corno de África.

Pub

Segundo um relatório publicado pela The Century Foundation em fevereiro passado, os carregamentos intercetados com destino aos Huthis continham sobretudo materiais destinados ao fabrico de armas, dos quais 35% eram provenientes da China e 21% do Irão, no período entre 2021 e 2025.

"Sem a assistência iraniana, os Huthis não seriam hoje uma potência regional", reconhece Thomas Juneau.

No entanto, no terreno iemenita, também beneficiaram da integração de elementos do antigo exército nacional, das alianças estabelecidas com tribos e, sobretudo, da "fragilidade" do Governo, minado pelas divisões e pela corrupção, um fator "essencial, tanto quanto a assistência iraniana, para compreender a história da ascensão dos Huthis", conclui.

Pub

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

Partilhar