Primeiro negro a presidir ao Supremo faz história no Brasil

O juiz Joaquim Barbosa, relator do processo do “Mensalão”, tomou posse na tarde desta quinta-feira como novo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro. Barbosa, de 58 anos, vai cumprir um mandato de dois anos e terá como seu vice-presidente, irónicamente, o juiz Ricardo Lewandowsky, revisor do 'Mensalão', com o qual se desentendeu àsperamente em vários momentos do julgamento daquele caso.

22 de novembro de 2012 às 22:34
brasil, mensalão, justiça, dilma, joaquim barbosa, supremo Foto: Reuters
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A cerimónia solene decorreu no edifício do tribunal, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, para uma plateia de mais de 1500 convidados, brasileiros e estrangeiros. Entre eles a presidente Dilma Rousseff, ministros, governadores, parlamentares e muita gente famosa.

Vários convidados e outras pessoas que não estavam na cerimónia mas se manifestaram a propósito dela, realçaram o marco histórico que é ter um juiz negro na presidência da mais alta corte do Brasil. E não é só a cor da pele que faz de Barbosa um exemplo, a história da vida dele é uma demonstração de tenacidade, de perseverança e, já depois de juiz, de total isenção até frente aos que o ajudaram a chegar ao Supremo.

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Nascido na pequena Paracatu, no interior do estado de Minas Gerais, filho de um pedreiro e de uma mulher a dias, negro e pobre, Joaquim Barbosa reunia todas as condições para ser mais um cidadão brasileiro a engrossar o rol dos desfavorecidos numa periferia qualquer do país. Mas ele mostrou que, quando realmente se tem força de vontade e não se olha a sacrifícios, o sonho pode tornar-se realidade.

Depois de vários outros trabalhos eventuais que arranjava quando podia em Brasília, para onde o pai se mudou em busca de vida melhor, o jovem Joaquim Barbosa, ou Joca, ou Quincas, seus dois diminutivos, conseguiu um emprego como digitador na oficina gráfica do Senado, trabalhando durante a madrugada para, ao amanhecer, o jornal daquela casa estar nas mãos dos leitores. Não era grande coisa, mas era um emprego fixo, com ordenado fixo e garantido.

Sem nunca ter deixado de estudar, conseguiu mais tarde passar e iniciou o curso de Direito na prestigiada Universidade Federal de Brasília, pública, fazendo verdadeiros malabarismos para conseguir conciliar o trabalho da madrugada com os estudos. Muitas vezes nem dava para voltar para casa e dormia mesmo num canto da gráfica do Senado.

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Formado, prestou concurso e conseguiu entrar para o Ministério dos Negócios Estrangeiros e, a partir daí, a coisa ficou mais fácil. Extremamente dedicado ao estudo do Direito, foi subindo na carreira jurídica e, antes de ser chamado por Lula em 2003 para o Supremo, era Procurador da República no estado do Rio de Janeiro.

A sua coragem e isenção ficaram bem patentes menos de três anos depois, quando acolheu sem reservas o processo do escândalo de corrupção conhecido como 'Mensalão', no qual o principal arguido é o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, exactamente o homem que, apresentado por amigos comuns, tinha viabilizado a sua indicação por Lula ao Supremo.

E ele levou essa independência até final, condenando tanto Dirceu quanto outros líderes do Partido dos Trabalhadores, e não cedendo às fortíssimas pressões que o próprio Lula fez para evitar o início do julgamento, que actualmente está na fase final.

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Considerado implacável e por vezes intempestivo, Joaquim Barbosa comandou com o processo do 'Mensalão' uma ruptura com a histórica complacência do judiciário brasileiro com a corrupção praticada por poderosos, e dá a esperança de que, agora na presidência da mais alta corte brasileira, esse divisor de águas se aprofunde ainda mais.

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