Rússia ameaça Arménia com guerra económica devido à aproximação à União Europeia
Guerra económica começou, na realidade, há quase dois meses, praticamente ao mesmo tempo que a campanha eleitoral na Arménia.
A Rússia deu esta quarta-feira mais um passo no confronto com a Arménia, em vésperas das eleições legislativas no país, ao ameaçar suspender o fornecimento de petróleo e gás devido à crescente aproximação de Erevan à União Europeia (UE).
A guerra económica começou, na realidade, há quase dois meses, praticamente ao mesmo tempo que a campanha eleitoral na Arménia -- as eleições legislativas realizam-se a 07 de junho -, quando o Kremlin se opôs à reeleição do atual primeiro-ministro arménio, Nikol Pashinyan.
Moscovo já puniu Erevan com a proibição de exportar para o mercado russo flores, água mineral e, parcialmente, conhaque e vinho, ameaçando fazer o mesmo com frutas e legumes, alegando motivos fitossanitários.
O Kremlin recorreu anteriormente a métodos semelhantes para pressionar outros vizinhos considerados rebeldes que procuravam afastar-se da órbita russa, como a Ucrânia ou a Moldova.
Até agora, Moscovo limitava-se a advertir Pashinyan sobre uma eventual subida dos preços das exportações, mas a Rússia entregou esta quarta-feira uma carta ao Governo arménio ameaçando suspender os fornecimentos de petróleo, gás e diamantes em bruto.
"Caso continue o processo de integração da República da Arménia na UE, a parte russa suspenderá ou denunciará unilateralmente o acordo entre os governos da Rússia e da Arménia sobre cooperação no domínio do fornecimento de gás natural, produtos petrolíferos e diamantes em bruto, de 02 de dezembro de 2013", explicou Maria Zakharova, porta-voz da diplomacia russa.
A carta é assinada pelo ministro da Energia russo, Serguei Tsiviliov, que, segundo o diário Kommersant, que teve acesso ao documento, argumenta que o aprofundamento das relações entre o país caucasiano e a UE põe em causa décadas de estreita cooperação com Moscovo.
Ao abrigo do acordo assinado em 2013, a Arménia recebe da Rússia "em condições preferenciais", segundo Tsiviliov, 85% das importações de gás, dois terços dos produtos petrolíferos e 50% dos diamantes.
O Presidente russo, Vladimir Putin, já tinha insinuado há algumas semanas que a Arménia poderia deixar de pagar 177 dólares (152 euros) por cada mil metros cúbicos de gás e passar a pagar 600 dólares (515 euros), tarifa aplicada a outros países europeus.
Além disso, advertiu que a intenção da Ucrânia de assinar, em 2013, um Acordo de Associação com a UE foi uma das causas do atual conflito.
O Kremlin tenta influenciar por todos os meios o desenrolar da campanha eleitoral. Para isso, irá levantar na sexta-feira, na cimeira da União Económica Eurasiática (UEE), liderada por Moscovo, a questão do eventual conflito relacionado com a futura integração arménia na UE.
"Os planos da Arménia não podem deixar de suscitar preocupação nos outros países que cooperam com a Arménia no quadro da UEE", explicou Yuri Ushakov, conselheiro de política internacional do Kremlin.
O problema é que, como admitiu o diplomata, não é possível expulsar a Arménia, já que o procedimento não está previsto nos estatutos da organização. Cabe ao próprio país declarar a intenção de suspender a participação "por uma razão ou outra".
Ushakov recordou que a Arménia "recebe enormes benefícios da cooperação no quadro da UEE", uma vez que, desde a adesão, o Produto Interno Bruto (PIB) "praticamente duplicou", passando de 11.600 milhões para 20.200 milhões de dólares (de 9.660 milhões para 1.740 milhões de euros), enquanto os salários aumentaram 50%.
Insistiu que a economia arménia apresenta "ritmos extraordinários de crescimento", de 12,6% em 2022 para 7,2% em 2025, o que demonstra que a Arménia "recebe enormes benefícios da cooperação no quadro da UEE", destino de 38,5% das exportações do país.
O primeiro-ministro arménio respondeu esta quarta-feira que o povo arménio deve ter alternativas: "pertencer à UEE ou à UE".
"Não serei eu a decidir, mas os cidadãos da Arménia. A minha tarefa é que exista uma alternativa e ela existe", afirmou Pashinyan, acrescentando que "os parceiros que respondem a isto com ameaças, mesmo que veladas, agem contra si próprios".
"Não é lógico ameaçar a Arménia com preços elevados", acrescentou.
Após a Rússia não ter ajudado a Arménia no conflito com o Azerbaijão, em 2023, pelo controlo da região de Nagorno-Karabakh, Pashinyan decidiu congelar a participação na aliança militar pós-soviética e aproximar-se do Ocidente, acolhendo no início deste mês a cimeira da Comunidade Política Europeia e, na terça-feira, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.
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