SOCORRO FALHOU NO 11 DE SETEMBRO

Rivalidades entre corpos de polícias e de bombeiros e problemas de comunicações dificultaram os primeiros esforços de salvamento de vidas nas Torres Gémeas de Nova Iorque após os ataques terroristas a 11 de Setembro de 2001, revelaram esta terça-feira membros da comissão nacional norte-americana constituída para investigar a resposta aos atentados.

18 de maio de 2004 às 20:58
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A chamada Comissão Nacional sobre os Ataques Terroristas deu hoje início a dois dias de sessões públicas, durante os quais serão escutados os testemunhos de alguns dos intervenientes e responsáveis pela resposta imediata das equipas de socorro após o embate de dois aviões comerciais nas duas torres gémeas do World Trade Center.

Nesse dia 11 de Setembro de 2001, 19 terroristas desviaram quatro aviões, dois dos quais embateram nas torres emblemáticas de Nova Iorque, um despenhou-se contra a fachada do Pentágono (Departamento de Defesa), em Washington, e outro caiu num descampado na Pensylvania, após alguns passageiros terem tentado dominar os terroristas a bordo. Em Nova Iorque e Washington morreram em consequência dos atentados cerca de 3 mil pessoas, incluindo 343 bombeiros e 23 polícias, a maior parte deles esmagados pelo desmoronamento das duas torres gigantes, cada uma com mais de cem andares.

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Na primeira sessão pública da comissão de inquérito, realizada esta terça-feira a menos de 3 quilómetros do local onde antes se erguiam as torres gémeas, estiveram presentes familiares de vítimas. A sessão começou com a projecção de algumas imagens dos momentos em que os aviões atingiram as torres, o que provocou reacções de grande emoção na ‘plateia’.

Os comissários (membros da comissão de inquérito) já tinham avisado para o facto de estas sessões públicas poderem gerar momentos de grande emoção e também algumas trocas de acusações, o que acabou por se confirmar. O comissário John Lehman (republicano), ‘disparou’ a acusação que ‘incendiou’ a sessão: “Penso que o comando e controlo de comunicações no serviço público desta cidade (Nova Iorque) é um escândalo.” Familiares de vítimas, ansiosos por respostas para a sua dor, irromperam em aplausos.

“VOCÊ DÁ A ENTENDER QUE TUDO ESTEVE MAL”

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Antigos responsáveis pelos departamentos de Polícia, de Bombeiros e de Gestão de Emergência, muitas vezes com a voz embargada pela emoção, admitiram que, de facto, existiram problemas de comunicação na primeira resposta ao horror, mas desmentiram a tese de que rivalidades entre os departamentos tivessem prejudicado a coordenação da acção de emergência.

Esses mesmos responsáveis contrapuseram que as falhas devem ser analisadas num contexto de caos e não devem ensombrar o heroísmo dos muitos que deram a vida no esforço que resultou na evacuação de 25 mil pessoas das torres gémeas. “Você dá a entender que tudo esteve mal na forma como funcionámos no 11 de Setembro. É vergonhoso que faça tais declarações”, disse o antigo chefe do departamento de bombeiros Thomas von Essen, em resposta directa ao comissário Lehman. Outros admitiram que, de facto, desde essa altura foram desenvolvidos esforços no sentido de melhorar os mecanismos de coordenação entre departamentos, mas que muito há ainda por fazer a respeito das comunicações.

E as comunicações parece que, de facto, constituíram a grande falha na primeira resposta ao ataque terrorista em Nova Iorque. Funcionários da comissão reproduziram, por exemplo, respostas dadas por operadoras de linhas telefónicas de emergência a pessoas aflitas dentro das torres já atingidas. Os conselhos dados pelas operadoras eram, muitas vezes, antagónicos e nenhuma foi capaz de dizer, por exemplo, em que andares tinham embatido os aviões. Enquanto a alguns interlocutores era aconselhado que saíssem do edifício, a outros era dito que ficassem.

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NÃO PREVIRAM DESMORONAMENTO

Os homens que arriscaram a vida para socorrer pessoas dentro dos edifícios atingidos queixaram-se de que o equipamento de comunicações que possuíam não os ligava a diferentes departamentos de socorro. As equipas de socorro dentro dos edifícios nada sabiam sobre o que se passava noutros andares, na outra torre, ou no exterior. Havia helicópteros a sobrevoar as torres, mas a informação que recolhiam dessa observação não era transmitida aos socorristas dentro dos edifícios.

Resultado importante destas falhas de comunicação foi o facto de os polícias e bombeiros que estavam dentro das torres gémeas não calcularem que as mesmas pudessem desabar. As duas torres ruíram cerca de uma hora e quarenta e cinco minutos após o primeiro impacto. Quando a primeira torre desabou, os socorristas que estavam na outra torre (Torre Norte) não souberam o que aconteceu. Sem conhecimento do perigo de desabamento não tiveram o sentido de emergência acrescido para apressar a evacuação... e a segunda torre desmoronou-se meia-hora depois da primeira.

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