Temer considera "insignificantes" denúncias da polícia sobre carne estragada
"Nada como mencionar números para verificar a insignificância dos factos", disse.
O presidente brasileiro, Michel Temer, voltou esta terça-feira a minimizar a mega-operação desencadeada sexta-feira pela Polícia Federal, que denunciou o uso de carne estragada e de substâncias cancerígenas pelas grandes empresas produtoras e exportadoras de carne no Brasil. Em discurso em Brasília, Temer ponderou que foi feito um "alarde" exagerado e desnecessário em redor do assunto, que fez vários países suspenderem a compra de carne ao Brasil, e avançou uma série de cifras sobre a grandeza das exportações brasileiras para, no seu raciocínio, mostrar a "insignificância" das denúncias.
"Nada como mencionar números para verificar a insignificância dos factos (a venda de carne estragada no Brasil e a sua exportação para quase 150 países)", declarou Temer, acrescentando: "Insignificância que, devo dizer, não deve ser patrocinada, porque, se há desvios (de conduta) devem ser apurados, como já estão a ser."
Temer classificou as irregularidades encontradas pela Polícia Federal como casos isolados que não justificariam, na sua opinião, o que chamou de "alarde" dos inspectores e agentes envolvidos na investigação e dos media. A operação, designada "Carne Fraca", atingiu todos os maiores processadores e distribuidores de carne do Brasil, que controlam o mercado interno e as exportações.
"Houve um grande alarde nos últimos dias em relação à carne brasileira. E isso causou, não posso deixar de registar, um embaraço económico ao país, pois vários países já pensam ou pensaram suspender as importações", afirmou Temer noutro ponto do seu discurso, voltando a tratar a questão como um mero problema económico e não como um crime contra a saúde pública.
As declarações de Temer seguem a mesma linha adoptada por outros membros do governo, nomeadamente o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, que tentam minimizar a operação, criticando os métodos da Polícia Federal. Para o governo, apesar de as suspeitas da polícia incidirem sobre os maiores productores de carne do Brasil e pressuporem crimes graves contra a saúde pública, os casos apontados são meramente pontuais e não comprometem o sector agropecuário, um dos mais importantes e rentáveis do Brasil.
Na Operação Carne Fraca, a maior já desencadeada na história da Polícia Federal, que usou 1100 dos seus 7500 agentes, foram detectadas, segundo a corporação, pagamento de "luvas" a políticos para defenderem interesses dos grandes empresários do sector, e a fiscais do Ministério da Agricultura, para comprovarem fraudulentamente a qualidade de carne que na verdade estava imprópria para consumo.
A Polícia Federal afirma que na investigação, que durou dois anos e, além de vistorias a fábricas teve escutas a empresários, foi detectado, entre outras irregularidades, o uso de toneladas de carne já vencida para uso interno e exportação, o uso de carnes não compatíveis para a fabricação de enchidos, e a adição de productos químicos cancerígenos para darem melhor aspecto a carne estragada e permitir a sua comercialização.
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