Veneno que matou Navalny é "200 vezes mais potente do que a morfina": os efeitos da epibatidina

Dissidente russo morreu numa colónia penal na Sibéria, há dois anos.

16 de fevereiro de 2026 às 10:01
Navalny morreu há dois anos numa colónia penal russa Foto: AP
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Cinco países europeus garantiram este fim de semana que Alexei Navalny foi envenenado numa colónia penal russa na Sibéria, há dois anos, depois de terem sido encontrados vestígios de epibatidina - uma toxina letal proveniente da rã-flecha - em amostras do corpo do dissidente russo. Numa conferência de imprensa em Munique, onde apareceu ao lado dos ministros dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, França, Alemanha, Suécia e Países Baixos, a viúva não hesitou em apontar o dedo ao governo de Vladimir Putin. Mas o que é a epibatidina?

Trata-se de uma substância altamente tóxica, que pode ser isolada a partir da pele da rã-flecha, uma espécie que vive nas florestas tropicais da América do Sul e cujo veneno as comunidades indígenas usavam para matar animais, com zarabatanas. Daí o seu nome.

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Segundo Jill Johnson, uma especialista em toxicologia ouvida pela BBC, esta toxina é "200 vezes mais potente do que a morfina", e pode ser produzida em laboratório. As rãs-flecha em cativeiro não a produzem, pelo que a epibatidina não pode ser encontrada naturalmente na Rússia, conforme explicaram os 'aliados' na conferência de imprensa do último sábado.

A substância já foi investigada como possível analgésico, mas os estudos foram abandonados uma vez que não pode ser usada clinicamente por ser demasiado tóxica.

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Jill Johnson explica que, quando entra no organismo, a epibatidina estimula excessivamente os recetores nervosos e pode causar espasmos musculares, paralisia, convulsões, diminuição da frequência cardíaca, insuficiência respiratória e, por fim, a morte. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Johann Wadephul, disse que as vítimas deste veneno são deixadas a "sufocar em agonia".

Trata-se de uma substância muito rara. As rãs-flecha, acrescenta a mesma especialista, produzem-na ao ingerirem os alimentos certos para produzir alcaloides — um tipo de composto orgânico — que, por sua vez, produzem epibatidina, acumulando-a na pele. Se a dieta do animal mudar, as reservas de epibatidina esgotar-se-ão. "Encontrar uma rã-flecha selvagem no lugar certo, a comer exatamente o alimento necessário para produzir os alcaloides certos, é quase impossível... quase", disse Johnson. "Trata-se de um método incrivelmente raro de envenenamento humano. Os únicos outros casos de envenenamento por epibatidina que conheço foram realizados em laboratório e não foram fatais."

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A Rússia continua a defender de Navalny morreu, aos 47 anos, de causas naturais. A porta-voz do Kremlin, citada pela agência de notícias estatal Tass, considerou "todas as conversas e declarações uma campanha destinada a desviar a atenção dos problemas urgentes do Ocidente".

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