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Correio da Manhã

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A DOLOROSA ESCOLHA DE ANETTA

“Minha querida, a mamã não te protegeu. A mamã não te salvou. Deixei-te ali sozinha. Porque não apareces nos meus sonhos?”. Todos os dias Anetta pede perdão à sua filha Alana, de nove anos, que deixou na escola de Beslan.
16 de Setembro de 2004 às 00:00
Após mais de 24 horas de cativeiro, Anetta teve de escolher: ou saía com a filha mais nova ou ficavam as três. Anetta escolheu sair com Milena, de um ano, e perdeu Alana. Agora não consegue reconciliar-se consigo própria. Como viver com o remorso?
Um dia depois do assalto pelos terroristas tchetchenos à Escola nº 1 de Beslan, os negociadores russos conseguiram um acordo com os sequestradores: deixar que um pequeno grupo de mães saísse com os filhos mais novos. Anetta foi uma das contempladas. Rogou aos terroristas que deixassem sair a sua filha Alana e, em troca, ela continuaria refém. Em vão. Quem mata crianças não tem capacidade para compreender a dor de uma mãe.
Desesperada, Anetta optou. “A minha filha mais velha olhou para mim e começou a chorar. Estou sempre a ver aquele olhar. Sempre”, desabafa, com a voz entrecortada por soluços. “Então eu disse-lhe – continua –, Alana, tu és uma menina inteligente. Tu ficas aqui à espera”. Foi a última vez que a viu viva.
Vinte e quatro horas depois desta dolorosa escolha, Alana continuava com vida, contou-lhe um sobrevivente. Estava a dormir quando as bombas explodiram no ginásio. “Ela deve ter tentado fugir porque tinha uma bala no pescoço”, conta ainda Anetta.
Desde que enterrou a filha, Anetta vai ao cemitério para estar com ela. Todas as manhãs pede-lhe perdão. “Minha querida – diz-lhe –, a mamã não te protegeu. A mamã não te salvou. Deixei-te ali sozinha. Pensei que morreríamos todas as três se eu ficasse. Porque não apareces nos meus sonhos?”
Do seu apartamento, Anetta consegue ver a escola onde perdeu Alana. Todos os dias confronta-se com a decisão que tomou. Está para sempre refém da sua escolha.
Mas Anetta não foi única a ter de fazer uma escolha penosa. Muitas outras mães passaram pelo mesmo drama. Ontem, no regresso às aulas, 80 por cento das crianças ficaram em casa. Nem elas nem as famílias estão ainda preparadas para voltar ao local onde viram morrer entes queridos e amigos.
BOMBAS NAS CABINAS DOS AVIÕES
As explosões quase simultâneas que no final do mês passado causaram a destruição em pleno voo de dois aviões russos foram provocadas por bombas colocadas nas cabinas de passageiros, informou ontem o presidente da comissão de inquérito, Igor Levitine. De acordo com o registo das caixas negras dos aviões, as explosões causaram a despressurização das cabinas, provocando a destruição dos aparelhos em pleno ar. O conteúdo das conversas não dá qualquer indicação de que tenha existido um ataque contra a tripulação ou uma tentativa de assumir o controlo dos aparelhos. Os ataques, que causaram a morte a 99 pessoas, foram atribuídos aos separatistas tchetchenos, e terão sido levados a cabo por mulheres suicidas, as tristemente célebres “viúvas negras” do Cáucaso.
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