País é conhecido como a terra do fogo e do gelo, mas é também um “case study” intrigante durante esta pandemia global.
A nação insular tem apenas um ponto de entrada, o Aeroporto de Keflavik, uma pequena população de cerca de 364 mil habitantes e muito menos burocracia do que a maioria dos países. E tem Kari Stefansson, um neurologista que fundou a DeCode Genetics em 1996 para extrair dados genéticos exclusivos dos seus compatriotas. A empresa tornou-se pioneira global em genética populacional e as suas ligações a doenças.
Na luta contra o coronavírus, a DeCode lançou um dos programas de rastreamento e teste mais abrangentes do mundo, ajudando a conter a disseminação da covid-19 no país e dando informações sobre a evolução da doença e outras questões que os EUA e outros estão a tentar responder. "A Islândia é o melhor laboratório vivo que temos", diz John Ioannidis, professor de medicina e epidemiologia de Stanford. "Eles produziram informações úteis e mostraram que, com a realização abrangente de testes, temos grandes resultados".
Stefansson, de 71 anos, estava a conduzir em direção ao trabalho no início de março quando ouviu uma estatística na rádio que o levou a agir: na China, segundo o relato, mais de 3% da população deveria morrem durante a epidemia. "Não conseguia entender como é que podíamos calcular a taxa de mortalidade sem conhecer a propagação do vírus na comunidade", diz Stefansson, cuja empresa foi adquirida pela farmacêutica californiana Amgen Inc. em 2012. "O que está a faltar em todo o mundo é um nível suficiente de triagem".
Ligou para a diretora de saúde da Islândia, Alma Moller, e em poucas horas convenceu-a a permitir que a DeCode desse início a uma enorme operação de testes à covid-19 nos seus laboratórios. A DeCode juntou-se então às autoridades nacionais de saúde e examinou as pessoas com sinais de infeção respiratória, bem como voluntários assintomáticos e pessoas escolhidas aleatoriamente.
Através de testes generalizados, combinados com o sequenciamento de centenas de amostras virais de pacientes e rastreamento de contactos, os investigadores começaram a desenvolver uma imagem detalhada de como o coronavírus entrou no país e depois se espalhou de uma pessoa para outra. Um estudo realizado por geneticistas da DeCode e pela direção do Hospital Universitário Nacional da Islândia, publicado a 14 de abril no New England Journal of Medicine, dá alguns sinais do que o país pode descobrir.
Os genomas do povo islandês são alvo de mais estudo do que os de cidadãos de qualquer outro país. Mais de dois terços da população participou, de alguma forma, em algumas das pesquisas genéticas da DeCode ao longo dos anos. Quando Stefansson apresentou o seu plano de triagem, o país diagnosticou apenas três casos da doença. Nesse ponto, o número de mortos devido à covid-19 nos EUA tinha acabado de atingir os dois dígitos; mas o presidente Trump esteve mais uma semana sem declarar o estado de emergência. A 21 de abril, a Islândia havia testado mais de 43.000 residentes, mais de 12% da sua população.
Pelo contrário, Nova Iorque, que realizou mais testes do que qualquer outro estado, testou mais de 640 mil pessoas, ou pouco mais de 3% da sua população. A Islândia descobriu que, enquanto os casos iniciais eram sobretudo pessoas que haviam regressado de férias na neve, na Áustria e em Itália, amostras posteriores mostraram estirpes do vírus provenientes de muitos países, incluindo locais como o Reino Unido, que era considerado na altura um país de baixo risco. Os investigadores identificaram mais de 291 mutações que não foram encontradas em nenhum outro lugar, ilustrando a frequência com que o vírus muda à medida que se espalha. A Islândia também mostrou que o número de pessoas que estão infetadas com o vírus, mas que não apresentam sintomas, pode ser alto: cerca de 0,8% das pessoas que se voluntariaram testaram positivo, assim como 0,6% das pessoas selecionadas aleatoriamente para participar no estudo. Cerca de metade das pessoas que tem covid-19 pode ser assintomática, diz Stefansson, embora muitas dessas pessoas possam desenvolver sintomas mais tarde.
A DeCode planeia pesquisar o ADN dos hospedeiros virais - pacientes que foram previamente infetados com a covid-19 - em busca de pistas sobre porque é que algumas pessoas não apresentam sintomas, enquanto outras ficam gravemente doentes. Os estudos do país já contribuíram para determinar quem é mais afetado pela infeção, observando que crianças e mulheres são menos vulneráveis.
Em colaboração com o governo e outras empresas, a empresa criou uma aplicação que pode ajudar a rastrear contactos das pessoas que testaram positivo, uma etapa que é considerada uma das chaves para ajudar a colocar em funcionamento uma economia fechada. Até agora, a Islândia não instituiu um pedido generalizado de confinamento em casa, como os EUA e outros países. Ainda que as autoridades tenham imposto medidas de distanciamento social e proibido grandes aglomerações, as escolas primárias permanecem abertas, assim como algumas lojas e restaurantes.
"Sabíamos o que funcionava e tivemos a sorte de captar esses casos iniciais", diz Kjartan Hreinn Njalsson, assistente do diretor de saúde da Islândia. "A nossa grande sorte em tudo isto é sermos um país pequeno. É fácil mobilizar as pessoas que precisam de ser mobilizadas".
A combinação de testes generalizados e atempados e o rastreamento de contactos permitiu termos agora "a epidemia sob controlo", diz Stefansson. O número de infeções ativas na Islândia parece ter atingido o pico. A 21 de abril, o país tinha 1.778 casos confirmadas e dez mortes. Cerca de 1.026 pessoas estavam em quarentena.
Os esforços agressivos da Islândia não foram poupados dos mesmos problemas que enfrentam outras nações, incluindo a escassez de materiais de teste. Mas Stefansson diz que quando ficaram sem zaragatoas para realizar testes, várias empresas ligaram imediatamente a oferecer alternativas. E quando os ventiladores começaram a escassear, mais de uma dúzia de empresas apareceu para ajudar. "Somos uma nação rebelde que não consegue encontrar tranquilidade quando as coisas estão a correr bem", diz. "Mas quando há uma crise, somos melhores do que qualquer outra nação do mundo".
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